Reciclagem

Monday, June 20, 2005

A SOCIOPATA

--A Teodoro, por favor?
--Também te adoro, meu amor!
Pronto. Minha noite tinha começado. Sabia que ia dar nisso. O engraçadinho do carro ao lado, saiu gargalhando e sem dar a informação. Que vontade de voltar pra casa. Ademais, em pleno verão, qualquer lugar deve ter aquele cheiro execrável de suor, cigarros e bebida no ar. Por outro lado, se fosse inverno, teria o cheiro de naftalina. A humanidade fede. Deus deve estar cansado dela e com razão. Daí os tsunamis, os terremotos, as epidemias. A volta ao caos para uma nova criação. Como se Ele pegasse o seu pincel e lambuzasse a tela, confundindo tudo.
Ah, cheguei sozinha à Teodoro. Agora é só virar a Mourato e cair nos braços notívagos da Vila Madalena. Que coisa mais besta, alguém comemorar aniversário em barzinho e ainda cada convidado que pague a sua consumação. No mínimo, vou gastar o dinheiro de um bom livro sobre contabilidade e economia. Aliás, que coisa mais besta alguém perder uma boa noite de sono só porque é sábado. Pra mim, sábado é dia de chinelão, pijama e solidão. No máximo, um filme de terror acompanhado de uma água tônica gasificada e um saco de soníferos para depois.
Mas, o que dizer na segunda? Tem-se que ter algo pra se falar. Por que? Odeio festas, odeio aglomerados, odeio gente. E se de repente, encontrar o chato da informação? Com certeza deve ser amigo do desgraçado que me convidou. Já imagino a cena: vai me reconhecer e contar pra todo mundo a brincadeira que fez.
Mas o aniversariante é o Chefe da Seção. Ai, meu Deus, vou ter que dar aqueles dois beijinhos de parabéns e sentir aquele cheiro de lavanda barata. Aposto que não vai nem olhar para a gravata que comprei. Já estou vendo a coitada servindo de coleirinha de cachorro. Arre! Odeio animais. Não entendo como alguém os levam para casa e às vezes, deixam até dormir na própria cama!
A chata da Mariana vai estar lá com certeza. Olhando-me de cima a baixo, cochichando com a Bete que vai chamar a Cris, que corre para a Laura e todas farão uma tese de doutoramento sobre a minha roupa que não combina em nada.
O que vou falar se alguém se aproximar? Detesto falar. Principalmente, nestes lugares onde você não fala, você berra. Vou ter uma faringite, com certeza. O que vou fazer se alguém me convidar pra dançar? Detesto dançar. E aposto que são aquelas músicas que parecem um exorcismo. Vou torcer o tornozelo.
Cheguei. Quanta gente! Quantos risos, quanto fingimento. Ninguém pode estar feliz num lugar assim. Não, definitivamente, não! Mil vezes não! Está decidido.
Vou pra casa ficar aguardando ansiosamente a musiquinha de encerramento do Fantástico e dormir sonhando com a sinfonia paulistana do Billy, segunda: “vão bora,vão bora, tá na hora”. Ah, e a voz melodiosa e repetitiva da Pan: “em São Paulo, sete horas”. Que felicidade! Se alguém perguntar porque não fui, ora... Como sempre estive viajando.


Edi Longo.
SP., 22/02/05

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