Reciclagem

Wednesday, June 22, 2005

BAH, CHE!

O calor estava sufocante. Entramos com desconfiança no avião. Procedência Russa. Bem, mas estávamos voltando. Olhei mais uma vez aquela paisagem: linda! Escutei com desinteresse o papo dos amigos de trás: a mesma coisa...falavam do furação Ivã, o terrível, que estaria se aproximando da costa cubana. Falavam com tanta displicência! E com tanto alívio por não estarem mais lá! Pensei no problema que aquilo traria para aquela gente já tão sofrida. Segurei-me para não brigar com Deus, como sempre faço diante de injustiças, mas como já estava tão perto Dele, implorei que os ajudasse. Recostei-me, relaxei e...

“-Quem é você?
-Não me reconhece? Bisbilhotou tanto o Museu que pensei, sinceramente, reconhecer-me-ia no ato. Tirou até uma foto comigo e com o Camilo Cienfuegos! E está vestindo uma camiseta com a minha cara!
Meus Deus, eu estava diante do Che! O próprio. Ernesto Guevara de la Serna. O Che!

-Ora, foi muito bom eu encontrar você, amigo. Essa camiseta com sua cara é apenas um pequeno “recuerdo” de viagem. Tenho dúvidas mais profundas sobre tudo o que vi. Por falar em ver...Viu o que a tal Revolução fez ao povo cubano? O que adianta terem hospitais, terem escolas, terem um par de asas os agasalhando, se não têm liberdade para voar?Parece que todo mundo tem medo de um Bicho papão.

-Acho que você não entendeu nada. E, o mais incrível, é que acabou de sair de uma ditadura militar. Que insensibilidade! Não podemos abaixar a cabeça para os abusos, temos que cultivar o ódio para combater o ódio, somente assim os combatentes se tornam fortes para vencer.

-Por que não semear o amor como exemplo para conseguir o mesmo amor, cabron? Não precisamos pegar em nenhum fuzil. Nunca ouviu falar de Gandhi? Na nossa bandeira, lê-se claramente: ORDEM E PROGRESSO, não: ESTUDO, TRABALHO E...FUZIL! Fuzil numa bandeira? Uma praça com o nome: das ARMAS? Isso incita à violência, não acha?

-E como você acha que combateríamos Batista e seus asseclas? Iríamos jogar palavras bonitas em cima de um soldado armado? Fizemos isso e não deu certo. É muito fácil apenas falar. Não se faz uma Revolução apenas com palavras, mas com armas. O ditador só entende essa linguagem: o cheiro da pólvora.

-Concordo. O nosso ditador Getúlio também a usou, mas a última vez, foi contra si mesmo para entrar para a história. Sei que antes de usá-lo em si, usou muito em outros. Bem...Para tomar conta da situação. Mas, vocês, depois que conseguiram tomar conta da situação, o que fizeram? Por que não procuraram instaurar no país uma democracia? Acha que era suficiente chegar diante de um povo molambento e perguntar: O que querem que façamos? Querem que coloquemos no paredão os traidores da Pátria? Você acha que esse povo assim inflamado iria responder o quê? Naquele momento, o povo colocaria Fidel no poder, homem. Eles não tinham em quem se segurar. Mas parece que o próprio Fidel adorou o poder e o tomou literalmente nas mãos, exercendo-o até hoje. Aquilo para mim, hoje parece a Revolução de um homem só.

-Naquele momento, precisávamos organizar tudo. Precisávamos de hospitais, precisávamos de escolas, de comida. Se não nos mantivéssemos fortes, fatalmente, iriam nos derrotar e tomariam novamente conta da situação. Não está lembrada do episódio em que os norte-americanos tentaram tomar a baía dos Porcos? Se não reagíssemos daquela forma, tudo teria sido em vão. O nosso sofrimento a bordo do Granma. O sofrimento em Sierra Maestra. Você não entende porque viu tudo em filme, em fotos, em Museu, em escritos, em palavras. Pare! Coloque-se em nosso lugar.

-Mas já se passaram quarenta e cinco anos, Che! Por que Fidel não preparou esse povo para escolher um outro dirigente? Ah! É bem mais fácil disseminar uma propaganda absolutamente comunista, né? No abecedário das crianças só deve ter a letra C (de Cuba, Comunismo, Carência, Calados...); crianças essas que hoje já têm em média 40 anos de idade. Que nunca saíram dos limites da ilha e, os que tiveram licença para sair só o faziam para ir à URSS, para serem mais massacrados de propaganda. Outros mais ousados, tentavam fugir em barcos mal preparados e quando não eram recapturados, morriam afogados. Crianças que nunca conheceram outra coisa além de suas próprias idiossincrasias, que até eram proibidas de sonhar, pois não adianta ter sonhos irrealizáveis, porque para isso precisa-se de liberdade.
-Mas o que adianta ter liberdade se não se tem condições para tê-la? Fomos embargados pelos EUA, fomos cercados como animais dentro de um chiqueiro. Se eles pudessem, tornar-nos-iam novamente o seu quintal.

-Claro que conheço todos os problemas que sofreram depois da Revolução, Che, mas...

-No seu país, vocês comem liberdade? O que adianta a liberdade se muitos de vocês vivem na rua; se muitos reviram lixos; se muitos morrem antes mesmo de nascer; se velhos têm que continuar trabalhando porque a parca aposentadoria mal dá para comer; se muitos não sabem também o que é liberdade, pois não sabem nem escrever? Acha que liberdade é apenas o ato de ir e vir? Ir para onde, vir de onde? Ir para qual viaduto? Vir de qual esgoto imundo?”

Aqui, precisei de um fôlego. Lembrei instintivamente, que alguns de nós matam até os moradores de rua e senti um calafrio. Estamos em plena guerrilha urbana! Mas, podíamos cobrar de quem escolhêssemos...bem, de qualquer forma, acho que os noticiários não chegam lá em cima. Ainda bem!

-Sempre o mesmo velho discurso. A URSS quebrou, camarada. Partiu-se em mil pedaços como um cristal vagabundo. Já foi comprovado que a Teoria Marxista-Leninista é apenas um amontoado de sonhos.
-Que não deram certo, por causa de pessoas incrédulas como você, que têm medo de se molhar, preferem ficar eternamente embaixo de um aconchegante guarda-chuva.

-Claro que abomino o consumismo imperante no Capitalismo, mas depende de cada um de nós saber como administrar a própria casa, sem qualquer fuzil nos obrigando a fazer do modo que ele acha certo. Nossa cidadania é soberana. Ninguém invade nossas mentes, aí está a LIBERDADE. Nós podemos pensar livres e transmitir tudo, educando nossos filhos através de exemplos. E optamos por nossos dirigentes. Muitos outros países se abriram para vocês. Vi investimentos canadenses, vi investimentos espanhóis, deixa disso. O que acontece é que Fidel fez uma lavagem cerebral em Cuba e...Valeu a pena?”

Acordei com um solavanco. A voz da aeromoça anunciava: “Chegamos a São Paulo!” Ai, agora quem sentia alívio era eu!

A voz de Che batia insistentemente na minha cabeça como uma cefaléia intermitente: “Ir para onde? Vir de onde?” Lembrei-me de Berta, nossa guia em Havana. Parecia orgulhosa da Revolução. Seus olhos brilhavam quando falava de Jose Marti, poeta brilhante e revolucionário apaixonado. Ela tinha estado na Bulgária, fazendo estágio. Era uma enciclopédia ambulante da história de seu país. Em compensação, lembrei-me do vendedor de cocos em Cayo Largo, que ao ser questionado por mim se se sentia feliz com a situação política, disse-me com um olhar meio desconfiado: temos tudo, mas...não temos liberdade, tudo é proibido! Essa incoerência ficara martelando a minha consciência.

Na verdade, aquela ilha é tão pequena e desprotegida! Apesar de todo aquele mar lindo que a circunda, ela é carente de água potável impossibilitando as policulturas agrônomas. Na verdade, ela necessita do produto de outros países. Do petróleo, do investimento, de tudo. Que pena que a Cuba dos sonhos de Che não tenha se concretizado. A Cuba Libre que hoje se tornou apenas uma bebida para turista ansioso de novidades. Saúde, cabron! A Cuba dos seus sonhos seria até covardia. Os anjos iriam querer morar ali.

Sorri internamente. Aquele homem foi um herói não só lá, mas em lugares onde o humano era oprimido. Che é apenas e tão somente um defensor dos mais necessitados. Abdicou tudo que Cuba lhe deu para acolher outras lutas. Era um sonhador corajoso.

Acho que o entendi. Nunca suportei o julgo do homem sobre outro homem. Nunca! Por isso eu sempre o admirei mais do que a Fidel. Acho que se fosse ele que tivesse ficado no governo de Cuba...Mas, por outro lado, ele era um estrangeiro. Vivo, acho que hoje ele estaria decepcionando parte do povo como o seu amigo Fidel. Vai se saber. Morto, virou um ícone! Lutara por povos que não eram seus! Passei a mão no peito, afagando a camiseta com a típica estampa do Che e lembrei da frase ao lado dela lá no Ministério das Indústrias, na praça da Revolução: Hasta la vitória siempre! Ainda retruquei, sorrindo: À vitória da liberdade, cabron, siempre!
Chegamos.

Ainda me questionei: será que eu teria esse desprendimento? Será que brigaria por outro povo que não fosse o brasileiro? Recolhi as minhas bagagens de mão e, tive que me segurar para não dar uma de Papa e beijar o chão.
Em casa, liguei o computador e resolvi fazer a minha revolução particular, apenas com palavras...só palavras, como uma oração, quem sabe Deus não me ouvirá?

Que Ele proteja todo o nosso Planeta Azul do julgo daqueles que se julgam donos de outrem!

Né Fidel, né Bush?

Bah, Che!

Monday, June 20, 2005

A SOCIOPATA

--A Teodoro, por favor?
--Também te adoro, meu amor!
Pronto. Minha noite tinha começado. Sabia que ia dar nisso. O engraçadinho do carro ao lado, saiu gargalhando e sem dar a informação. Que vontade de voltar pra casa. Ademais, em pleno verão, qualquer lugar deve ter aquele cheiro execrável de suor, cigarros e bebida no ar. Por outro lado, se fosse inverno, teria o cheiro de naftalina. A humanidade fede. Deus deve estar cansado dela e com razão. Daí os tsunamis, os terremotos, as epidemias. A volta ao caos para uma nova criação. Como se Ele pegasse o seu pincel e lambuzasse a tela, confundindo tudo.
Ah, cheguei sozinha à Teodoro. Agora é só virar a Mourato e cair nos braços notívagos da Vila Madalena. Que coisa mais besta, alguém comemorar aniversário em barzinho e ainda cada convidado que pague a sua consumação. No mínimo, vou gastar o dinheiro de um bom livro sobre contabilidade e economia. Aliás, que coisa mais besta alguém perder uma boa noite de sono só porque é sábado. Pra mim, sábado é dia de chinelão, pijama e solidão. No máximo, um filme de terror acompanhado de uma água tônica gasificada e um saco de soníferos para depois.
Mas, o que dizer na segunda? Tem-se que ter algo pra se falar. Por que? Odeio festas, odeio aglomerados, odeio gente. E se de repente, encontrar o chato da informação? Com certeza deve ser amigo do desgraçado que me convidou. Já imagino a cena: vai me reconhecer e contar pra todo mundo a brincadeira que fez.
Mas o aniversariante é o Chefe da Seção. Ai, meu Deus, vou ter que dar aqueles dois beijinhos de parabéns e sentir aquele cheiro de lavanda barata. Aposto que não vai nem olhar para a gravata que comprei. Já estou vendo a coitada servindo de coleirinha de cachorro. Arre! Odeio animais. Não entendo como alguém os levam para casa e às vezes, deixam até dormir na própria cama!
A chata da Mariana vai estar lá com certeza. Olhando-me de cima a baixo, cochichando com a Bete que vai chamar a Cris, que corre para a Laura e todas farão uma tese de doutoramento sobre a minha roupa que não combina em nada.
O que vou falar se alguém se aproximar? Detesto falar. Principalmente, nestes lugares onde você não fala, você berra. Vou ter uma faringite, com certeza. O que vou fazer se alguém me convidar pra dançar? Detesto dançar. E aposto que são aquelas músicas que parecem um exorcismo. Vou torcer o tornozelo.
Cheguei. Quanta gente! Quantos risos, quanto fingimento. Ninguém pode estar feliz num lugar assim. Não, definitivamente, não! Mil vezes não! Está decidido.
Vou pra casa ficar aguardando ansiosamente a musiquinha de encerramento do Fantástico e dormir sonhando com a sinfonia paulistana do Billy, segunda: “vão bora,vão bora, tá na hora”. Ah, e a voz melodiosa e repetitiva da Pan: “em São Paulo, sete horas”. Que felicidade! Se alguém perguntar porque não fui, ora... Como sempre estive viajando.


Edi Longo.
SP., 22/02/05

Tuesday, June 07, 2005

Brincando nos corredores da vida
(Prô Claudio-o pai, companheiro de brincadeira
e sempre amigo)

Escondida atrás da porta ri ao ver o meu retrato
estampado na parede de minh’alma amarelinha
cheguei na casa do céu numa rápida corridinha
meu coração pulava corda batendo desrritmado

Jogando bola queimada esbarrei num garotão
quis jogar xadrez comigo, preferi um pega-pega
perdeu-se então de amores no jogo de sedução
unidos curamos os tombos levados do escorrega

Muitos prazeres tivemos ao subir no carrossel
os cavalinhos rodavam e a gente comia pipoca
ouvindo Chico cantando e nos levando ao céu
esquecendo a roda-viva que a rotina provoca

Saindo da faculdade, brincávamos de “adivinha?”.
um dava o tom de uma música, outro dava a letra
oh! Doce castigo: era um beijo e outra batidinha
feita no “Rei das Batidas” que abençoava a treta

A grana era sempre curta e tudo ia prô: aí, pindura!
Acabava-se tudo em piadas, falando mal do governo
poesias feitas às pressas eram escondidas da criatura
com disfarce tão ridículo que jogávamos sons à ermo

Resolvemos brincar um dia de médico e enfermeira
trocamos alianças jurando amores eternos no anelar
numa palavra cruzada brincamos de nos multiplicar
jogamos esperma no óvulo, brincamos de trepadeira

E assim quando nós vimos brincávamos de reaprender
a vida que é a brincadeira com nossos filhos a ensinar
os pais só aprendem a crescer, quando têm que receber
os resultados das brincadeiras que viveram a praticar

Agora as brincadeiras são mais calmas, mais amenas
tornamo-nos reis, rainhas, damas e valetes sem medo
dados são ainda jogados, com menos riscos apenas
a vida tem um corredor? Oba, faremos dela brinquedo

A bengala servirá de ajuda pro pé-na-lata
a cadeira servirá de carrinho de rolemã
assim, brincando ainda na curva da estrada
chegaremos ao final brincando até de manhã!

Edi Longo,
SBAT 030899