Reciclagem

Wednesday, May 18, 2005

POLÍTICA DA BOA VIZINHANÇA

Não peço nada a ninguém nem à vida
ela que me dê o que acha que mereço
quando recebo uma graça merecida
apenas a quem me enviou eu agradeço

prô amigo e prô inimigo todo dia eu peço
em dobro tudo o que a mim desejar
e “meu” Deus que mande, isso eu meço
se for bom ou ruim foi Ele, não eu a revidar

Faço só aquilo que a ninguém prejudique
coloco em minha face antes de dar o tapa
dor, angústia, vergonha e tudo o que fabrique
problemas pra quem na vida é o meu comparsa

Se não puder ajudar, também não atrapalho
se não souber aconselhar, silencio e não falo
acho que assim sigo sem ter o trabalho
de me desculpar se pisar n’algum calo

Se não sabemos fazer, pra que fazê-lo?
Deixemos que outros façam melhor por nós
insubstituíveis não somos, esse é o segredo
da boa política pra não estarmos sós

Quando não sei algo, pergunto humilde
o mundo é tão vasto pra se conhecer tudo
outros sabem mais e sem qualquer melindre
aprendo com a vida que é o meu estudo

Às vezes, claro, como qualquer humano
dúvidas me abatem, coisas do cotidiano
bebo filosofias com um ardor freudiano
brigo com “meu” Deus num diálogo profano

quando do “meu” Deus falo, eu faço questão
de sempre colocar pronome possessivo
pois alguém pode achar, com toda razão
que seu Deus é outro, muito mais passivo

O meu é intempestivo, um amigo íntimo
que como todo amigo, sempre está brigando
se piso na bola, fica mudo e num gesto ínfimo
nunca me responde, sempre me xingando


E desta forma a gente vai vivendo
eu preciso Dele, Ele me consola
Ele não precisa de mim, mas vive me dizendo:
aprenda com a vida que é a grande escola

Sem vaidade vou meu mar singrando
meu barco é à vela e depende do vento
quando ele falha, ouve meu lamento
põe-me novamente na rota e no comando

A única coisa que a mim me importa
é ver meu semelhante feliz e completo
pois assim não vem bater à minha porta
entristecendo meu ego que quero liberto

quero dividir alegria, não uma esmola
quero plantar sementes, não secar um tronco
quero elo de mãos, não grilhões que esfola
quero disparar na vida, não parar num tranco

quero fantasias, gente bem nutrida
quero cara limpa, não cara pintada
quero político sério, não massa falida
quero fome nula, não a zero oficializada

ah, “meu”amigo Deus, por que não escreve certo?
Nossas linhas são paralelas, não são linhas tortas
estamos na mesma casa sem tramelas e sem portas
indefesos humanos com braços abertos

Pra colher, pra aprender, pra receber, apenas homem
não somos cristos, nem pretendemos sê-lo
numa cruz gritaríamos, sujando Seu nome
apenas ouça meu covarde apelo:

Só queria que todos meus vizinhos planetários
vivessem com as mesmas benesses que tenho
sou apenas um ser que em sonhos solitários
almeja pra todos melhor desempenho

Sonha acordada que não há mais guerra
o Planeta não está dividido em nação
apenas humanos usando essa Terra
vivendo em paz e em total comunhão

imagino todo mundo tendo tudo:
trabalho, saúde, lazer, educação
os jovens crescendo e, sobretudo
gozando os privilégios da ilusão!

Os adultos podendo legar aos filhos
tudo possível com o máximo conforto
pegando sem perigo um trem sobre os trilhos
Sem quaisquer reveses ou caminho torto

E quando velhos, que olhem pra trás
dormindo tranqüilos seus corpos cansados
não pobres mendigos carregando cartaz
qu’alguns hoje vestem com olhos magoados

E ver as crianças, seus netos chegando
esperando da vida o que sabem que vem
não decepcionados, sempre e quando
a vida lhes joga uma moeda com desdém

E assim, cumprindo o nosso percurso
completando nossa mais fantástica viagem
com diplomacia e pouco concurso
deixamos a visão dessa nossa estalagem

Pra viver tão pouco se é necessário
fixo “mens sanna in corpore sanno”
na porta do meu pobre e podre armário
que veste minh!alma como qualquer pano

acabamos todo mundo do mesmo jeito
na mais passiva e fria horizontalidade
pra que querer ser mais que um sujeito
se precisamos sempre da adjetividade

que nos classifica de bom ou ruim
dependendo dos verbos acionados
somos simples objetos com um fim
pela morte seremos todos nivelados

Pra viver só se precisa vida, isso é lei!
ter vida só se precisa saber viver - Ei!
Pra que a vida complicar, querer ser rei?
“Amai-vos uns aos outros, como Eu vos amei”.

EDI LONGO,
Antes e de qualquer coisa, gente.
SBAT 030899

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