Reciclagem

Thursday, May 12, 2005

NAS NOTAS DE UMA CANÇÃO

Pegou a agenda e depois de uns minutos, jogou-a num canto. E-mails antigos falando de negócios; telefones antigos de amigos perdidos; tudo antigo... Ana Claudia desligou o computador desanimada. Acendeu um cigarro deixando-se vagar nas espirais da fumaça.

Até ela estava ficando antiga como uma foto em branco e preto numa moldura oval. Riu triste pela comparação. Olhou-se no espelho e a imagem plastificada parecia não a reconhecer. Sentia-se enrugada por dentro e em cada dobra uma coisa tinha ficado escondida: o filho que não tem, o companheiro que não tem, o amigo sincero que não tem.

Ligou o som para ouvir alguma voz no silêncio. Parou como que hipnotizada. Olhou surpresa para o aparelho. Por que essa música? Saiu.

De repente estava diante do bar da moda de seus longínquos vinte anos, como se tivesse sido levada pelas notas daquela canção. Entrou.

Procurou inconscientemente pelos amigos na mesa do canto. Vazia. Onde andariam?

O local estava semi-escuro. Uma música mecânica como ela ao sentar-se, inundava aquele ar tabágico. Um garçom se aproximou. Olhou-o na esperança de ser o velho Zimba. Até um garçom conhecido seria bem vindo. Alguém precisava ajudá-la a carregar aquele peso de cinqüenta anos.

Estava se levantando para sair, quando do velho piano as notas de uma saudade latente começaram a se misturar com a espiral de seu cigarro. Com as pernas trêmulas, tornou a sentar-se: era ele! Miguel. Só Miguel sabia tocar dessa forma “As time goes by!” Será que deveria se aproximar? Não! Não conseguia se levantar.

Sentira-se bem no conforto de seus braços jovens e fortes naquele quartinho apertado da república. Tudo tinha que ser feito muito rapidamente, pois logo o lugar seria tomado pelos amigos que vinham encontrá-los para viverem as ações noturnas da cidade. No bar deles, naquele bar onde ficavam horas e horas discutindo sobre os assuntos da Faculdade. Quantos problemas econômicos, sociais e políticos do país tinham sido resolvidos naquela mesa do canto, pelo menos nas suas cabeças aladas. Quantas músicas proibidas eram tocadas. Quantos segredos e medos. E quando alguém suspeito aparecia, Miguel o envolvia com “As time goes by”, fazendo-o também viajar nas notas daquela canção.
***
O homem ao piano tocava sem nem ao menos olhar para os próprios dedos que corriam como se tivessem feito esse movimento desde a maternidade.

Os olhos vagavam de uma mesa para outra, absolutamente inexpressivos. Os cabelos lisos e oleosos acentuavam mais ainda a aparência desgastada, como o terno velho e amarrotado que usava.

Tinha quarenta e oito anos e parecia Atlas carregando o Globo nas costas encurvadas. Ao lado do piano, um banquinho com um copo semivazio e um cigarro no cinzeiro. De vez em quando olhava para a espiral do cigarro e parecia procurar uma lembrança. A testa já escasseando de cabelos mostrava uma ruga profunda entre as sobrancelhas espessas.

O despertador me acordou com essa música. Será que dei o leite para o gato? Será que desliguei a televisão ao sair? Ah, não tenho mais gato nem televisão. Onde será que deixei o meu último rastro? Onde será que deixei cair o meu último olhar de interesse? Por onde andará a minha vida? E a minha morte?

A mulher naquela mesa parece tão interessada. E por que será que está olhando assim pra mim? Bonita, parece alguém que conheci...Bobagem! Maldito vazio. Parece que fui esquartejado e esparramado pelos porões daquela prisão. Só me lembro daquelas paredes impassíveis. Sempre. Só ficou a lembrança de todos fugindo procurando um futuro e eu ficando à cata de um presente, como um mendigo numa lata de lixo. Catando desesperado pedaços de liberdade.

Por que será que hoje eu escolhi essa canção? Não consigo me recompor nem voando nas suas notas!

***

A música acaba.

O homem se aproxima do balcão e pede mais um uísque.

Ana Claudia também se aproxima e com o coração disparando estanca. Fica por uns instantes observando aquele pescoço flácido que um dia tanto beijara. Aqueles cabelos oleosos escorregariam agora os carinhos de suas mãos. Aquele corpo arqueado parecia pedir socorro ao invés de protegê-la. Trêmula se aproxima mais e sem querer derruba o copo da mão do pianista. Olha instintivamente as mãos. Lindas, longas e mágicas. Apenas elas pareciam agora o seu Miguel.

Estremecera ao sentir o toque sutil em seu rosto. Seu corpo se inundara de êxtase quando elas apertavam a sua cintura. Somente elas conseguiam levá-la para qualquer lugar do planeta.

Como acordada de um sonho mágico, sussurrou um pedido de desculpas num fio de voz quando o homem a xingou indignado.

Aquele olhar que tanto um dia a enlouquecera fitou-a, frio. O mesmo frio que percorreu sua espinha quando fora presa e depois deportada, desviando-a de sua história. Como teria sido?

Desviou também o olhar do vazio daqueles olhos e, num instante, percebeu que o seu Miguel continuava preso, mas agora na sua saudade e nas notas de uma canção.
EDI LONGO/SBAT 030899

0 Comments:

Post a Comment

<< Home