Reciclagem

Wednesday, May 11, 2005

IRRACIONAL PENSAMENTO

Sou...
A pulga que caminha pelo seu corpo inerte de intelectual; você coça de um lado, eu mordo do outro. Sou mais lépida e corro rápido para outro e outro lugar, divertindo-me à beça. Acorde para a vida, criança, largue esse dicionário velho de sua biblioteca, que só tem palavras soltas e não falam de nada. Elas precisam ser acarinhadas para terem ação.
Sou...
O bicho carpinteiro que pega o martelo e bate na sua cabeça de porco para excrementar as fezes de pensamentos ímpios que a fomentam. Bato mais e mais e você pensa que é dor de cabeça, que nada. É sua acomodação rodeando o centro que você acha que é. Olhe para cima, para o lado, para baixo, sempre há alguém por perto que precisa de você.
Sou...
O bicho da seda que faz lindos vestidos para cobrir a nudez dos corpos impuros que bailam música pornô nos cabarés da vida. Não visto almas. Estas precisam sair às ruas nuas, para vestir com bondade os corpos dos homens nus que dormem sob viadutos. Precisam lavar suas feridas, alimentar suas vísceras, vestir sua dor.
Sou...
O rato que corre rápido pelas profundezas do mundo, deixando em cada bueiro as fezes que nas inundações de chuvas vêm para limpar a sujeira dos homens, causa peste bubônica para expurgar os pecados daqueles que não cuidam da Terra. Usam-na, apenas.
Sou...
O camaleão que gargalha à medida que muda de cor e foge da fúria daqueles que devastam e tornam cada vez mais careca o nosso planeta que de azul só tem a raiva. Brinco de esconde-esconde fugindo de você, meu dessemelhante, pois só entende o que quer e o que é convencional, com regras de cabideiro e talheres certinhos à mesa. Baile pelado na chuva, lave-se e ria feito louco! O tempo urge!
Sou...
O camelo que guarda no seu enorme tanque d’água, mil peixinhos nadando para comê-los mais tarde. Previdente o Seu camelo, não acha? Está rindo do quê? Reserve também para o futuro um pouco de benevolência para com o próximo. Estamos apenas no começo do terceiro milênio. Não só guarde, mas distribua.
Sou...
A barata horrorosa que você, com nojo, nem pisa pelo líquido asqueroso que sai de meu corpo imundo. São as fezes de meu alimento, pois senão, a sua linda cozinha que cozinha suculentos pratos servidos à francesa, estaria cheia de moscas e insetos voadores que passeiam folgados e espreitam o seu sono injusto. Não jogue o resto desses alimentos no triturador da pia, faça uma sopa e doe! Dói? Ó, dó, que dor!
Sou...
A cobra, cujo veneno não mata, mas que cobra... que cobra... que cobra de Deus, do Demônio, dos Santos, dos Anjos, dos Homens de boa vontade, de má vontade, da puta que pariu, compaixão para o nosso pobre mundo abandonado. Animais racionais, ouçam! Um dia quem sabe os céus ou os infernos me ouvirão?Enquanto não, rastejo junto aos meus iguais: os excluídos, os pestilentos, os que se tornam, pelos descasos, irracionais.
Sou...
Um humano que não espera nada do segundo que passou; pois é passado; não espera nada da hora que virá, pois é incógnita. Sou somente o presente, que me dá oportunidades para crescer como homem ou me faz chafurdar na lama, dependendo de minha ação.
Sou...
Este exato momento que estou destilando esse irracional pensamento.

Sou...

Edi Longo,
SBAT 030899

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