Reciclagem

Thursday, May 12, 2005


GANÂNCIA E LUXÚRIA

O caminho feito pelo navio parecia um desenho de criança. O azul profundo era singrado pelas linhas tortas em branco. A gaivota se aproximou e colheu o pequeno pedaço de pão que ela jogou. Ficou observando aquele olhar absorto. Estaria pensando nos deuses e seus poderes? Quem sabe não seria Atenas e aquele mar era o chafariz de suas lágrimas? Podia ser. Via rugas de preocupações em sua testa. Ela se voltou e ele desviou o olhar. Ela o fixou. Ele ficou cabisbaixo. Teria percebido? Era tímido e aquela viagem era um sonho de muito trabalho, de muitos anos. Voltou o olhar para o livro que estava fingindo ler.

À noite, ela estava sentada à mesa com um homem. Não sabia bem porque, mas sentiu um peso no peito. Ela ria pra ele, ele acariciava a sua mão. Sentiu ciúmes. Em apenas três dias, aquele homem já a conquistara! Sentiu-se o maior dos incompetentes! Viveria para sempre sozinho. Procurou se sentar o mais distante possível para observá-los como se fossem dois animais em exposição. Como ele era ridículo com aquele levantar de sobrancelhas “à lá Clark Gable”! Definitivamente, ridículo. Ela, bem...Indefinível! Riso com duas covinhas, olhos negros, sobrancelhas espessas, dentes brilhantes e branquíssimos como as ruas pintadas de
Mikolos.

Ficou perdido entre a análise e a imaginação de saber o que faria com aquele monumento. Assustou-se quando sentiu uma pressão no seu ombro. Era ela! A cadeira ao lado estava vaga e ela se sentou. Ficou sem fôlego e apenas gaguejou:

---Tudo bem?

---Tudo. Por que não me paga um drink ao invés de ficar fazendo uma autópsia de mim?

--- Desculpe. Não pensei que tivesse percebido.

--- Não poderia deixar de não perceber, tantas foram as vezes que me senti nua.

---Desculpe, mais uma vez. Não quis ofendê-la. Perdão. Onde está seu companheiro?

--- Companheiro?!? Mas...estou viajando sozinha.

--- Agora a pouco você estava acompanhada de...

--- Desculpe, mas você é muito estranho. Estou viajando sozinha, já disse.
Não quis insistir, mas tinha certeza que ela estava acompanhada. Fixou o lugar de onde viera e realmente, o homem não estava ali. Sentiu um tremor involuntário e mecanicamente a convidou para ir até ao convés.

A lua estava linda refletindo o prateado nas águas do Egeu. O céu bordado de estrelas, pensou quase rindo de sua definição tão vulgar. Sentiu-se ridículo tanto quanto o falso Clark Gable. Não sabia o que falar. Apenas pensava no homem que a estivera acompanhando ao jantar.

--- Então, o que faz?

--- Sou médico. E você?

---Ah! Agora entendo a perspicaz observação. Eu sou uma deusa. A do amor. Afrodite.

---Vamos, pare de brincar.

---Mas é verdade. Meu nome é Afrodite. Minha mãe é brasileira e meu pai é grego. Meus avós paternos moram em Rodes, a nossa próxima parada. Estou indo visitá-los.

---Sim, mas qual...

---A minha profissão? Já disse: vivo do amor. Gostei do nome e me dedico a ele de corpo e alma. Sou o que se chama no Brasil: uma garota de programa, ou mais especifica e friamente, uma puta. Mas vou avisando que estou de férias.

---Nem passou pela minha cabeça...

---Passou. Sei reconhecer um cliente, meu caro.

---Não, juro que não. Claro que você é linda, mas jamais pensaria em ...

---Pagar para amar?

----E aquele homem que estava com você quem é? Não queira me convencer que não estava acompanhada, por favor.

---Não tenho a mínima idéia do que está falando, já disse que viajo sozinha e o que menos quero é um envolvimento com alguém, a não ser para fazer o que estamos fazendo: um gostoso papo, mesmo porque em férias, ninguém trabalha.
Ficaram horas conversando. Ela, agora, parecia-lhe uma personagem de uma revista em quadrinhos. Desenhada. Era formada em psicologia, mas realmente preferia se prostituir. Tinha prazer em pertencer a muitos homens e ao mesmo tempo não pertencer a nenhum. Era seca nas suas colocações e achava a coisa mais natural do mundo a sua opção. Gostava do sexo pelo sexo e pelo dinheiro, mais nada. Confessou que fazia sexo até com mulheres, desde que pagassem e bem, claro! Tinha uma cultura fantástica e todo o dinheiro que ganhava, gastava em viagens. E o dinheiro era o seu deus. Ele foi feito para o mercado, afirmava rindo e, deveria circular de mão em mão por isso ela o adorava. Adorava tudo o que o dinheiro podia lhe dar. Luxo, beleza. Confessou ter feito cinco plásticas. Gargalhando diante de seu ar perplexo, disse-lhe que apenas o rosto era dela, enquanto o tempo deixasse. O resto, era da medicina. Conhecia música brasileira como poucos e tocava maravilhosamente um violão que foi buscar na cabine. A voz era límpida, apesar de fumar um cigarro após o outro e beber uísque como se fosse água. Apesar da decepção, sentiu-se atraído ainda mais por ela. Despediram-se com um aperto de mão singelo e um "boa viagem", pois ficaria em Rodes no dia seguinte.

Não conseguia dormir, quando viu o dia estava clareando e já era hora do café da manhã, pois o navio atracaria em Rodes onde um ônibus levaria os turistas para um passeio. Sentia-se vazio, como se algo houvesse lhe escapado do peito. Não se lembrava de um dia ter estado tão triste. Procurou-a com os olhos e quase gritou quando a viu sentada com o mesmo homem da noite anterior rindo e se acariciando. Não se conteve e tentou se aproximar, mas o movimento das pessoas que procuravam o seu café nas bancadas expostas, impediram-no de chegar a tempo. Quando viu, a mesa onde ambos estavam, era um vazio cheio de interrogações e dúvidas. Apertou as mãos para se cientificar de que estava acordado.

Estava com os pensamentos revoltos e se pudesse, ficaria no navio, mas era norma todos saírem para que a limpeza fosse feita e, cabisbaixo, desceu as escadas. Sentou-se no banco do ônibus indicado pelo guia , estremecendo ao ouvi-la:

---E então, o que está achando da viagem? Você vai adorar Rodes, apesar de que, cá entre nós, não conte nada aos historiadores, mas o tal colosso nunca existiu, sabia?

---Parece que as coisas aqui são todas lendárias. Nunca existem! Onde está o tal homem?

---De novo?

---Eu vi vocês no café da manhã!
---Já disse que estou sozinha. Por que então, ele não estaria comigo?

---Ora, você já chegou ao seu destino.

---Muito bem, vamos fazer uma coisa. Assim que chegarmos ao centro da cidade, pegamos um táxi e você vai conhecer os meus avós, topa?

---Sério? Mas não posso ficar sem o ônibus.

Acabou indo. Os avós existiam, graças a Zeus! Eram dois simpáticos gregos que recebiam como ninguém. Ela traduzia o que ele dizia e vice-versa. A casa era de pedra, linda! Várias plantas e flores a tornavam mais ainda acolhedora. O almoço delicioso foi servido numa mesa, também de pedra, no jardim. Ele ficou maravilhado ao ver o carinho que ela tinha para com os avós. Levara muitos presentes. Seu semblante agora lhe parecia a estátua de uma deusa, daquelas que vemos espalhadas pelas inúmeras relíquias do fantástico mundo grego. Ganhou dos velhos um rosário, peça que manejam com habilidade e que serve para filosofarem ou apenas para fugirem do estresse. Tomou um último gole de "ouzo", a bebida regional, e se despediu. Mal chegou ao portão e sentiu uma pancada na cabeça, sentindo-se ser arrastado para uma espécie de porão. Pegaram sua pequena mochila onde estavam todos os dólares, os euros e os dracmas. Tudo o que era seu de valor estava ali, pois era recomendado que não deixassem nada no navio, quando fossem descer.

Percebeu numa fração de segundos que tinha sido usado como isca. A sua deusa da ganância e da luxúria continuava brincando com seus pensamentos confusos, mas entendeu tudo. Ela vivia ali mesmo. O navio servia para atrair os peixes para serem desovados. Não entendia direito o que falavam, pois riam muito da facilidade daquela operação e, antes de fechar definitivamente os olhos, pode visualizar a figura do homem que estivera com ela no navio.

Acordou, inexplicavelmente, num hospital em Atenas e ao dar o presente depoimento, o policial apenas o olhava com incredulidade, balançando a cabeça. Percebeu que sua história ficaria como as dos deuses, para sempre no imaginário mundo grego, onde tudo parece virar magia.

EDI LONGO
SBAT 030988

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