Reciclagem

Wednesday, May 18, 2005

POLÍTICA DA BOA VIZINHANÇA

Não peço nada a ninguém nem à vida
ela que me dê o que acha que mereço
quando recebo uma graça merecida
apenas a quem me enviou eu agradeço

prô amigo e prô inimigo todo dia eu peço
em dobro tudo o que a mim desejar
e “meu” Deus que mande, isso eu meço
se for bom ou ruim foi Ele, não eu a revidar

Faço só aquilo que a ninguém prejudique
coloco em minha face antes de dar o tapa
dor, angústia, vergonha e tudo o que fabrique
problemas pra quem na vida é o meu comparsa

Se não puder ajudar, também não atrapalho
se não souber aconselhar, silencio e não falo
acho que assim sigo sem ter o trabalho
de me desculpar se pisar n’algum calo

Se não sabemos fazer, pra que fazê-lo?
Deixemos que outros façam melhor por nós
insubstituíveis não somos, esse é o segredo
da boa política pra não estarmos sós

Quando não sei algo, pergunto humilde
o mundo é tão vasto pra se conhecer tudo
outros sabem mais e sem qualquer melindre
aprendo com a vida que é o meu estudo

Às vezes, claro, como qualquer humano
dúvidas me abatem, coisas do cotidiano
bebo filosofias com um ardor freudiano
brigo com “meu” Deus num diálogo profano

quando do “meu” Deus falo, eu faço questão
de sempre colocar pronome possessivo
pois alguém pode achar, com toda razão
que seu Deus é outro, muito mais passivo

O meu é intempestivo, um amigo íntimo
que como todo amigo, sempre está brigando
se piso na bola, fica mudo e num gesto ínfimo
nunca me responde, sempre me xingando


E desta forma a gente vai vivendo
eu preciso Dele, Ele me consola
Ele não precisa de mim, mas vive me dizendo:
aprenda com a vida que é a grande escola

Sem vaidade vou meu mar singrando
meu barco é à vela e depende do vento
quando ele falha, ouve meu lamento
põe-me novamente na rota e no comando

A única coisa que a mim me importa
é ver meu semelhante feliz e completo
pois assim não vem bater à minha porta
entristecendo meu ego que quero liberto

quero dividir alegria, não uma esmola
quero plantar sementes, não secar um tronco
quero elo de mãos, não grilhões que esfola
quero disparar na vida, não parar num tranco

quero fantasias, gente bem nutrida
quero cara limpa, não cara pintada
quero político sério, não massa falida
quero fome nula, não a zero oficializada

ah, “meu”amigo Deus, por que não escreve certo?
Nossas linhas são paralelas, não são linhas tortas
estamos na mesma casa sem tramelas e sem portas
indefesos humanos com braços abertos

Pra colher, pra aprender, pra receber, apenas homem
não somos cristos, nem pretendemos sê-lo
numa cruz gritaríamos, sujando Seu nome
apenas ouça meu covarde apelo:

Só queria que todos meus vizinhos planetários
vivessem com as mesmas benesses que tenho
sou apenas um ser que em sonhos solitários
almeja pra todos melhor desempenho

Sonha acordada que não há mais guerra
o Planeta não está dividido em nação
apenas humanos usando essa Terra
vivendo em paz e em total comunhão

imagino todo mundo tendo tudo:
trabalho, saúde, lazer, educação
os jovens crescendo e, sobretudo
gozando os privilégios da ilusão!

Os adultos podendo legar aos filhos
tudo possível com o máximo conforto
pegando sem perigo um trem sobre os trilhos
Sem quaisquer reveses ou caminho torto

E quando velhos, que olhem pra trás
dormindo tranqüilos seus corpos cansados
não pobres mendigos carregando cartaz
qu’alguns hoje vestem com olhos magoados

E ver as crianças, seus netos chegando
esperando da vida o que sabem que vem
não decepcionados, sempre e quando
a vida lhes joga uma moeda com desdém

E assim, cumprindo o nosso percurso
completando nossa mais fantástica viagem
com diplomacia e pouco concurso
deixamos a visão dessa nossa estalagem

Pra viver tão pouco se é necessário
fixo “mens sanna in corpore sanno”
na porta do meu pobre e podre armário
que veste minh!alma como qualquer pano

acabamos todo mundo do mesmo jeito
na mais passiva e fria horizontalidade
pra que querer ser mais que um sujeito
se precisamos sempre da adjetividade

que nos classifica de bom ou ruim
dependendo dos verbos acionados
somos simples objetos com um fim
pela morte seremos todos nivelados

Pra viver só se precisa vida, isso é lei!
ter vida só se precisa saber viver - Ei!
Pra que a vida complicar, querer ser rei?
“Amai-vos uns aos outros, como Eu vos amei”.

EDI LONGO,
Antes e de qualquer coisa, gente.
SBAT 030899

Thursday, May 12, 2005

A MISTERIOSA DAMA

Olhei-a com pavor a princípio.
Aqueles traços marcantes, aqueles olhos frios e penetrantes
me rasgavam como um desafio.
Fui descendo o olhar e seu colo me pareceu um infinito lugar onde se pode acolher,
embora sem muito calor, uma multidão de filhos.
Os seios pontudos e firmes me levaram, ludicamente, a um piquenique no pico do Jaraguá.
Parei o olhar lascivo no seio esquerdo
e lá estava o Masp pulsando como um coração ardente em plena Avenida.
Quase num torpor alucinógeno, num sonho delirante, percorri seus braços nus
e as veias transparentes me fizeram navegar no Pinheiros e Tietê.
Tentei, honestamente, tentei desviar o olhar daqueles pelos tão íntimos
como uma mata inexplorada,
simbolizando a sua mais sensual maneira de receber seus hóspedes
nas ensolaradas tardes do Ibirapuera.
E ela continuava ali.
Intrigante.
Intrigando-me.
Desviei o olhar, mas no meu pensamento continuei a desnudá-la, tentando entendê-la.
Ela é tão elegante quantos os seus Jardins e ao mesmo tempo
tão simples quanto os casebres de suas Vilas.
Que sensualidade existe em sua boca noturnamente alucinante!
Que vigor existe nas ações dos seus dias!
E, depois de muito tentar, ela finalmente cedera.
Eu a dominei, pois a compreendi:
Ela é maternalmente mulher, pois acolhe muitos filhos.
Ela é sedutoramente mulher, pois se dá pra todo mundo.
Ela é misteriosamente mulher, pois se deixa conquistar.
Ela é tão brasileiramente mulher, que somente no seu útero fecundo poderia
acontecer a nossa Independência!
E daqui, do topo deste apartamento onde dividimos nossas horas amantes,
olho-a mais uma vez dormindo com sua respiração calma e profunda
e percebo quanto a amo.
São Paulo, a minha linda e misteriosa dama!



O ABORTO PERMITIDO

Como seria a composição de um sujeito
quando Deus no silêncio de seu atelier
pincela com esmero e tinge o peito
mas, borra-o, limpa e apaga esse ser?

Será que esse desenhado esboço
pelas mãos divinas projetado
merece acabar num calabouço
no espaço escuro relegado?

Será que Deus comete algum equívoco
quando lhe escapa das mãos um gameta?
Ou será que nos testa e põe um crivo
Como um perspicaz e sério estafeta

E assim, na limpeza de seu quadro
não estraga tinta boa numa tela
redesenha outro ser na aquarela
economizando seu bom e sacro barro

e aquele que apagou ficou nas estrelas
outro vem pra cumprir o seu papel
vidas ruins, tem razão, melhor não tê-las
melhor ser um ser perdido lá no céu

E quando Deus se distrai o que acontece?
Nasce um Nero, um Calígula ou um Hitler?
Deus! Um calafrio acalanta minha prece
devias ter apagado quem fez a pólvora e o rifle!

Seria então considerado um aborto?
Quais leis a Deus seriam impostas?
Se desdesenhou e desdenhou um corpo
caberá a quem é humano as respostas?

Como tudo a Deus é permitido
espero que continue abortando
qualquer facínora entre nós metido
pro mundo continuar em paz girando.

Edi Longo,
SBAT 030899


GANÂNCIA E LUXÚRIA

O caminho feito pelo navio parecia um desenho de criança. O azul profundo era singrado pelas linhas tortas em branco. A gaivota se aproximou e colheu o pequeno pedaço de pão que ela jogou. Ficou observando aquele olhar absorto. Estaria pensando nos deuses e seus poderes? Quem sabe não seria Atenas e aquele mar era o chafariz de suas lágrimas? Podia ser. Via rugas de preocupações em sua testa. Ela se voltou e ele desviou o olhar. Ela o fixou. Ele ficou cabisbaixo. Teria percebido? Era tímido e aquela viagem era um sonho de muito trabalho, de muitos anos. Voltou o olhar para o livro que estava fingindo ler.

À noite, ela estava sentada à mesa com um homem. Não sabia bem porque, mas sentiu um peso no peito. Ela ria pra ele, ele acariciava a sua mão. Sentiu ciúmes. Em apenas três dias, aquele homem já a conquistara! Sentiu-se o maior dos incompetentes! Viveria para sempre sozinho. Procurou se sentar o mais distante possível para observá-los como se fossem dois animais em exposição. Como ele era ridículo com aquele levantar de sobrancelhas “à lá Clark Gable”! Definitivamente, ridículo. Ela, bem...Indefinível! Riso com duas covinhas, olhos negros, sobrancelhas espessas, dentes brilhantes e branquíssimos como as ruas pintadas de
Mikolos.

Ficou perdido entre a análise e a imaginação de saber o que faria com aquele monumento. Assustou-se quando sentiu uma pressão no seu ombro. Era ela! A cadeira ao lado estava vaga e ela se sentou. Ficou sem fôlego e apenas gaguejou:

---Tudo bem?

---Tudo. Por que não me paga um drink ao invés de ficar fazendo uma autópsia de mim?

--- Desculpe. Não pensei que tivesse percebido.

--- Não poderia deixar de não perceber, tantas foram as vezes que me senti nua.

---Desculpe, mais uma vez. Não quis ofendê-la. Perdão. Onde está seu companheiro?

--- Companheiro?!? Mas...estou viajando sozinha.

--- Agora a pouco você estava acompanhada de...

--- Desculpe, mas você é muito estranho. Estou viajando sozinha, já disse.
Não quis insistir, mas tinha certeza que ela estava acompanhada. Fixou o lugar de onde viera e realmente, o homem não estava ali. Sentiu um tremor involuntário e mecanicamente a convidou para ir até ao convés.

A lua estava linda refletindo o prateado nas águas do Egeu. O céu bordado de estrelas, pensou quase rindo de sua definição tão vulgar. Sentiu-se ridículo tanto quanto o falso Clark Gable. Não sabia o que falar. Apenas pensava no homem que a estivera acompanhando ao jantar.

--- Então, o que faz?

--- Sou médico. E você?

---Ah! Agora entendo a perspicaz observação. Eu sou uma deusa. A do amor. Afrodite.

---Vamos, pare de brincar.

---Mas é verdade. Meu nome é Afrodite. Minha mãe é brasileira e meu pai é grego. Meus avós paternos moram em Rodes, a nossa próxima parada. Estou indo visitá-los.

---Sim, mas qual...

---A minha profissão? Já disse: vivo do amor. Gostei do nome e me dedico a ele de corpo e alma. Sou o que se chama no Brasil: uma garota de programa, ou mais especifica e friamente, uma puta. Mas vou avisando que estou de férias.

---Nem passou pela minha cabeça...

---Passou. Sei reconhecer um cliente, meu caro.

---Não, juro que não. Claro que você é linda, mas jamais pensaria em ...

---Pagar para amar?

----E aquele homem que estava com você quem é? Não queira me convencer que não estava acompanhada, por favor.

---Não tenho a mínima idéia do que está falando, já disse que viajo sozinha e o que menos quero é um envolvimento com alguém, a não ser para fazer o que estamos fazendo: um gostoso papo, mesmo porque em férias, ninguém trabalha.
Ficaram horas conversando. Ela, agora, parecia-lhe uma personagem de uma revista em quadrinhos. Desenhada. Era formada em psicologia, mas realmente preferia se prostituir. Tinha prazer em pertencer a muitos homens e ao mesmo tempo não pertencer a nenhum. Era seca nas suas colocações e achava a coisa mais natural do mundo a sua opção. Gostava do sexo pelo sexo e pelo dinheiro, mais nada. Confessou que fazia sexo até com mulheres, desde que pagassem e bem, claro! Tinha uma cultura fantástica e todo o dinheiro que ganhava, gastava em viagens. E o dinheiro era o seu deus. Ele foi feito para o mercado, afirmava rindo e, deveria circular de mão em mão por isso ela o adorava. Adorava tudo o que o dinheiro podia lhe dar. Luxo, beleza. Confessou ter feito cinco plásticas. Gargalhando diante de seu ar perplexo, disse-lhe que apenas o rosto era dela, enquanto o tempo deixasse. O resto, era da medicina. Conhecia música brasileira como poucos e tocava maravilhosamente um violão que foi buscar na cabine. A voz era límpida, apesar de fumar um cigarro após o outro e beber uísque como se fosse água. Apesar da decepção, sentiu-se atraído ainda mais por ela. Despediram-se com um aperto de mão singelo e um "boa viagem", pois ficaria em Rodes no dia seguinte.

Não conseguia dormir, quando viu o dia estava clareando e já era hora do café da manhã, pois o navio atracaria em Rodes onde um ônibus levaria os turistas para um passeio. Sentia-se vazio, como se algo houvesse lhe escapado do peito. Não se lembrava de um dia ter estado tão triste. Procurou-a com os olhos e quase gritou quando a viu sentada com o mesmo homem da noite anterior rindo e se acariciando. Não se conteve e tentou se aproximar, mas o movimento das pessoas que procuravam o seu café nas bancadas expostas, impediram-no de chegar a tempo. Quando viu, a mesa onde ambos estavam, era um vazio cheio de interrogações e dúvidas. Apertou as mãos para se cientificar de que estava acordado.

Estava com os pensamentos revoltos e se pudesse, ficaria no navio, mas era norma todos saírem para que a limpeza fosse feita e, cabisbaixo, desceu as escadas. Sentou-se no banco do ônibus indicado pelo guia , estremecendo ao ouvi-la:

---E então, o que está achando da viagem? Você vai adorar Rodes, apesar de que, cá entre nós, não conte nada aos historiadores, mas o tal colosso nunca existiu, sabia?

---Parece que as coisas aqui são todas lendárias. Nunca existem! Onde está o tal homem?

---De novo?

---Eu vi vocês no café da manhã!
---Já disse que estou sozinha. Por que então, ele não estaria comigo?

---Ora, você já chegou ao seu destino.

---Muito bem, vamos fazer uma coisa. Assim que chegarmos ao centro da cidade, pegamos um táxi e você vai conhecer os meus avós, topa?

---Sério? Mas não posso ficar sem o ônibus.

Acabou indo. Os avós existiam, graças a Zeus! Eram dois simpáticos gregos que recebiam como ninguém. Ela traduzia o que ele dizia e vice-versa. A casa era de pedra, linda! Várias plantas e flores a tornavam mais ainda acolhedora. O almoço delicioso foi servido numa mesa, também de pedra, no jardim. Ele ficou maravilhado ao ver o carinho que ela tinha para com os avós. Levara muitos presentes. Seu semblante agora lhe parecia a estátua de uma deusa, daquelas que vemos espalhadas pelas inúmeras relíquias do fantástico mundo grego. Ganhou dos velhos um rosário, peça que manejam com habilidade e que serve para filosofarem ou apenas para fugirem do estresse. Tomou um último gole de "ouzo", a bebida regional, e se despediu. Mal chegou ao portão e sentiu uma pancada na cabeça, sentindo-se ser arrastado para uma espécie de porão. Pegaram sua pequena mochila onde estavam todos os dólares, os euros e os dracmas. Tudo o que era seu de valor estava ali, pois era recomendado que não deixassem nada no navio, quando fossem descer.

Percebeu numa fração de segundos que tinha sido usado como isca. A sua deusa da ganância e da luxúria continuava brincando com seus pensamentos confusos, mas entendeu tudo. Ela vivia ali mesmo. O navio servia para atrair os peixes para serem desovados. Não entendia direito o que falavam, pois riam muito da facilidade daquela operação e, antes de fechar definitivamente os olhos, pode visualizar a figura do homem que estivera com ela no navio.

Acordou, inexplicavelmente, num hospital em Atenas e ao dar o presente depoimento, o policial apenas o olhava com incredulidade, balançando a cabeça. Percebeu que sua história ficaria como as dos deuses, para sempre no imaginário mundo grego, onde tudo parece virar magia.

EDI LONGO
SBAT 030988

NAS NOTAS DE UMA CANÇÃO

Pegou a agenda e depois de uns minutos, jogou-a num canto. E-mails antigos falando de negócios; telefones antigos de amigos perdidos; tudo antigo... Ana Claudia desligou o computador desanimada. Acendeu um cigarro deixando-se vagar nas espirais da fumaça.

Até ela estava ficando antiga como uma foto em branco e preto numa moldura oval. Riu triste pela comparação. Olhou-se no espelho e a imagem plastificada parecia não a reconhecer. Sentia-se enrugada por dentro e em cada dobra uma coisa tinha ficado escondida: o filho que não tem, o companheiro que não tem, o amigo sincero que não tem.

Ligou o som para ouvir alguma voz no silêncio. Parou como que hipnotizada. Olhou surpresa para o aparelho. Por que essa música? Saiu.

De repente estava diante do bar da moda de seus longínquos vinte anos, como se tivesse sido levada pelas notas daquela canção. Entrou.

Procurou inconscientemente pelos amigos na mesa do canto. Vazia. Onde andariam?

O local estava semi-escuro. Uma música mecânica como ela ao sentar-se, inundava aquele ar tabágico. Um garçom se aproximou. Olhou-o na esperança de ser o velho Zimba. Até um garçom conhecido seria bem vindo. Alguém precisava ajudá-la a carregar aquele peso de cinqüenta anos.

Estava se levantando para sair, quando do velho piano as notas de uma saudade latente começaram a se misturar com a espiral de seu cigarro. Com as pernas trêmulas, tornou a sentar-se: era ele! Miguel. Só Miguel sabia tocar dessa forma “As time goes by!” Será que deveria se aproximar? Não! Não conseguia se levantar.

Sentira-se bem no conforto de seus braços jovens e fortes naquele quartinho apertado da república. Tudo tinha que ser feito muito rapidamente, pois logo o lugar seria tomado pelos amigos que vinham encontrá-los para viverem as ações noturnas da cidade. No bar deles, naquele bar onde ficavam horas e horas discutindo sobre os assuntos da Faculdade. Quantos problemas econômicos, sociais e políticos do país tinham sido resolvidos naquela mesa do canto, pelo menos nas suas cabeças aladas. Quantas músicas proibidas eram tocadas. Quantos segredos e medos. E quando alguém suspeito aparecia, Miguel o envolvia com “As time goes by”, fazendo-o também viajar nas notas daquela canção.
***
O homem ao piano tocava sem nem ao menos olhar para os próprios dedos que corriam como se tivessem feito esse movimento desde a maternidade.

Os olhos vagavam de uma mesa para outra, absolutamente inexpressivos. Os cabelos lisos e oleosos acentuavam mais ainda a aparência desgastada, como o terno velho e amarrotado que usava.

Tinha quarenta e oito anos e parecia Atlas carregando o Globo nas costas encurvadas. Ao lado do piano, um banquinho com um copo semivazio e um cigarro no cinzeiro. De vez em quando olhava para a espiral do cigarro e parecia procurar uma lembrança. A testa já escasseando de cabelos mostrava uma ruga profunda entre as sobrancelhas espessas.

O despertador me acordou com essa música. Será que dei o leite para o gato? Será que desliguei a televisão ao sair? Ah, não tenho mais gato nem televisão. Onde será que deixei o meu último rastro? Onde será que deixei cair o meu último olhar de interesse? Por onde andará a minha vida? E a minha morte?

A mulher naquela mesa parece tão interessada. E por que será que está olhando assim pra mim? Bonita, parece alguém que conheci...Bobagem! Maldito vazio. Parece que fui esquartejado e esparramado pelos porões daquela prisão. Só me lembro daquelas paredes impassíveis. Sempre. Só ficou a lembrança de todos fugindo procurando um futuro e eu ficando à cata de um presente, como um mendigo numa lata de lixo. Catando desesperado pedaços de liberdade.

Por que será que hoje eu escolhi essa canção? Não consigo me recompor nem voando nas suas notas!

***

A música acaba.

O homem se aproxima do balcão e pede mais um uísque.

Ana Claudia também se aproxima e com o coração disparando estanca. Fica por uns instantes observando aquele pescoço flácido que um dia tanto beijara. Aqueles cabelos oleosos escorregariam agora os carinhos de suas mãos. Aquele corpo arqueado parecia pedir socorro ao invés de protegê-la. Trêmula se aproxima mais e sem querer derruba o copo da mão do pianista. Olha instintivamente as mãos. Lindas, longas e mágicas. Apenas elas pareciam agora o seu Miguel.

Estremecera ao sentir o toque sutil em seu rosto. Seu corpo se inundara de êxtase quando elas apertavam a sua cintura. Somente elas conseguiam levá-la para qualquer lugar do planeta.

Como acordada de um sonho mágico, sussurrou um pedido de desculpas num fio de voz quando o homem a xingou indignado.

Aquele olhar que tanto um dia a enlouquecera fitou-a, frio. O mesmo frio que percorreu sua espinha quando fora presa e depois deportada, desviando-a de sua história. Como teria sido?

Desviou também o olhar do vazio daqueles olhos e, num instante, percebeu que o seu Miguel continuava preso, mas agora na sua saudade e nas notas de uma canção.
EDI LONGO/SBAT 030899

Wednesday, May 11, 2005

ABOIO

A boiada estoura na descida da colina
Chico Lins abóia com sua voz pequenina
Mimoso se achega amável e, dócil inclina
O dorso generoso pra acolher Rosalina

A moça monta manhosa e lhe acarinha a crina
Ele se levanta jeitoso pra não assustar a menina
Chico canta seu aboio e a boiada se reanima
Juntam-se novamente e sobem ladeira acima

O pasto verde e farto à beira d’água do rio
Dá-se com benevolência aos animais –bem macio
A natureza completa o quadro soltando o passario
E a terra toda parece um gozo de eterno cio

E nesta doce visão daquela linda paisagem
Minhas lembranças vagueiam dentro daquela miragem
Como se fosse um oásis prum cansaço de viagem
E sinto o cheiro e o gosto daquela linda pastagem

Ô boi, ô boi, eepaê, boi!
Chico Lins e a filha linda
Ambos incrustados ainda
Na minha infância que foi.
IRRACIONAL PENSAMENTO

Sou...
A pulga que caminha pelo seu corpo inerte de intelectual; você coça de um lado, eu mordo do outro. Sou mais lépida e corro rápido para outro e outro lugar, divertindo-me à beça. Acorde para a vida, criança, largue esse dicionário velho de sua biblioteca, que só tem palavras soltas e não falam de nada. Elas precisam ser acarinhadas para terem ação.
Sou...
O bicho carpinteiro que pega o martelo e bate na sua cabeça de porco para excrementar as fezes de pensamentos ímpios que a fomentam. Bato mais e mais e você pensa que é dor de cabeça, que nada. É sua acomodação rodeando o centro que você acha que é. Olhe para cima, para o lado, para baixo, sempre há alguém por perto que precisa de você.
Sou...
O bicho da seda que faz lindos vestidos para cobrir a nudez dos corpos impuros que bailam música pornô nos cabarés da vida. Não visto almas. Estas precisam sair às ruas nuas, para vestir com bondade os corpos dos homens nus que dormem sob viadutos. Precisam lavar suas feridas, alimentar suas vísceras, vestir sua dor.
Sou...
O rato que corre rápido pelas profundezas do mundo, deixando em cada bueiro as fezes que nas inundações de chuvas vêm para limpar a sujeira dos homens, causa peste bubônica para expurgar os pecados daqueles que não cuidam da Terra. Usam-na, apenas.
Sou...
O camaleão que gargalha à medida que muda de cor e foge da fúria daqueles que devastam e tornam cada vez mais careca o nosso planeta que de azul só tem a raiva. Brinco de esconde-esconde fugindo de você, meu dessemelhante, pois só entende o que quer e o que é convencional, com regras de cabideiro e talheres certinhos à mesa. Baile pelado na chuva, lave-se e ria feito louco! O tempo urge!
Sou...
O camelo que guarda no seu enorme tanque d’água, mil peixinhos nadando para comê-los mais tarde. Previdente o Seu camelo, não acha? Está rindo do quê? Reserve também para o futuro um pouco de benevolência para com o próximo. Estamos apenas no começo do terceiro milênio. Não só guarde, mas distribua.
Sou...
A barata horrorosa que você, com nojo, nem pisa pelo líquido asqueroso que sai de meu corpo imundo. São as fezes de meu alimento, pois senão, a sua linda cozinha que cozinha suculentos pratos servidos à francesa, estaria cheia de moscas e insetos voadores que passeiam folgados e espreitam o seu sono injusto. Não jogue o resto desses alimentos no triturador da pia, faça uma sopa e doe! Dói? Ó, dó, que dor!
Sou...
A cobra, cujo veneno não mata, mas que cobra... que cobra... que cobra de Deus, do Demônio, dos Santos, dos Anjos, dos Homens de boa vontade, de má vontade, da puta que pariu, compaixão para o nosso pobre mundo abandonado. Animais racionais, ouçam! Um dia quem sabe os céus ou os infernos me ouvirão?Enquanto não, rastejo junto aos meus iguais: os excluídos, os pestilentos, os que se tornam, pelos descasos, irracionais.
Sou...
Um humano que não espera nada do segundo que passou; pois é passado; não espera nada da hora que virá, pois é incógnita. Sou somente o presente, que me dá oportunidades para crescer como homem ou me faz chafurdar na lama, dependendo de minha ação.
Sou...
Este exato momento que estou destilando esse irracional pensamento.

Sou...

Edi Longo,
SBAT 030899

Tuesday, May 10, 2005

FIDELIDADE DE COMPANHEIRO
(homenagem para Vladimir Herzog)

Ainda que me partam os ossos
Mil silêncios cantarei pelo amigo
Ainda que me arranquem as unhas
Mil dores calarei para o castigo
Não me esconderei sob alcunhas
Nem chorarei segredos nossos

Ainda que me quebrem os dedos
Mil sons esconderei no infinito
Não sairão debaixo do carrasco
anseios por nós divididos
Do látego de mim sai só o asco
dentro do peito reprimo o grito

Mesmo que mil coroas de espinhos
Cortem as rugas de minha testa
Jamais direi um item de minha fonte
Prefiro morrer a ver a festa
Que o torturador gosta e consome
Arranquem tudo, menos o meu nome

Nem o nome do meu companheiro
Nem a razão de nossa luta
Queremos apenas o que nós é devido
Senão, do que vale a labuta?
Queremos o que nosso é de direito
Nesse solo mal amado e dividido
Sem isso, nada pra mim faz sentido

Deixo meus gritos, meus lamentos
Pra jogarem nos ombros dos nossos filhos
Ver-nos-ão como heróis ou bandidos?
Ou como a história - apenas empecilhos?
Espero que entendam nossos intentos
Vou embora sofrendo mas sem alarido


A verdade que julgue meu gesto incontido.

Edi Longo,
SBAT 030899




XEPA

Talvez se eu ficar olhando para o outro lado da rua como se não quisesse nada. Não, seria demais evidente. Talvez simplesmente peça. Não, ele não me daria, mas estou sentindo a tripa esquerda quase engolindo a direita. Meu estômago vai se engolir. Talvez corresse e simplesmente a pegasse. Não, definitivamente, não! Isso faria com que tropeçasse em alguém e caísse facilitando a minha captura. Agora, parece que o ar está me faltando e sinto cólicas. Olho para dentro e sinto que as vísceras estão se agredindo. Olho para fora, os sentidos brigam por ela. Para dentro, órgãos em luta. Para fora, as órbitas pulam. Meu estômago está preste a se engolir. Senti outra cólica. A tripa maior deve estar engolindo a menor. Ai, meu Deus! Sinto um tremor, mas está um calor! Se pedisse para a senhora gordinha? Não, nem prestaria atenção. Está tão preocupada com o preço. Mas aquela mais moça pode ser que seja mais bondosa. Não, está muito bem vestida. Nunca deve ter sentido o estômago querendo se comer. Deve ser madame. A outra carregando o carrinho deve ser a empregada. E se pedisse para a empregada na hora que a patroa se distrair, escolhendo melhor o pepino? Não, ela iria pensar que estou tentando roubá-la. Ia apertar mais a bolsa contra o peito. Não dá tempo para explicar que estamos no mesmo barco, só que o meu está com um puto de um buraco e está quase afundando. Parece que o meu estômago já se engoliu e agora está querendo escorrer pelas pernas. Que fraqueza! Talvez seja melhor esperar o final. Quando todos forem embora. Sempre ficam algumas sobras. No final de qualquer coisa sempre fica um resto. É, mas às vezes, é um resto de nada. E demora muito. Até lá não terei mais estômago. Ele já se comeu, ele já se escorreu pernas abaixo. Que gosto será que ela tem? Deve ter o gosto da vida. O sabor da satisfação. O deleite da vontade. Agora meu estômago está cantando. Graças a Deus, ele ainda está aí. Que alívio! Hum, aquela mais à esquerda parece mais apetitosa e bem maior. Dá prá agüentar quase o dia inteiro. Covarde! Só uma puxadinha, uma disfarçadinha, uma saidinha meio que na lateral e um dia inteiro de folga. Com estômago. Com direito a se aliviar depois. Puta merda, até a saliva está indo embora. A voz do estômago está rouca. Estou vendo estrelinhas quando olho para ela. Será que está piscando prá mim? Deve ser fraqueza. Nossa, agora ela parece uma princesa. E se eu chegar mais perto, ele poderia ouvir o lamento do meu estômago e quem sabe...Não, a voz dele é mais alta. Vende o seu produto. “Mulher bonita não paga, mas também não leva!” Prá ele ouvir, teria que ser um silêncio de paz. Já sei. Vou recostar na calçada e esperar. De repente, eu durmo e o fim chega rápido. As sobras ficarão perdidas pela rua. Aí, será tudo meu. Tudo meu, tudo meu como um tesouro encontrado se acordar antes do caminhão da limpeza, claro. Não posso dormir. Só esperar e tudo será só meu...só meu... Minha princesa talvez se torne como eu: pisoteada por muitos, enegrecida pelo tempo, flácida de tanto ser pega e nunca escolhida. Talvez esteja como eu. Á espera. Sempre à espreita, esperando por uma escolha, esperando por um momento. Então, será minha e nos fundiremos numa sonata de prazeres em plena rua. Ambos restos imundos como a própria xepa.
POBRE POEMA

Não me cobrem se não falo de flores
já tem tratados demais sobre a flora.
Não me cobrem se não falo de amores
qualquer poeta por eles ainda chora.

Falo sobre o menino que pede o pão
Penso no homem que não tem trabalho
Sinto pela mãe que tenta em vão,
dar ao filho o peito já falho.

Claro que acredito na flor, no poeta,
na ilusão, no choro, na paixão, no amor.
Não aceito o sofrimento, na dor quieta
O homem é cérebro, não depósito de horror.

Sofro nas caladas das noites geladas.
Aponto para os desvalidos sobre os lixos
olho os humanos, flores das calçadas
e sangro por aqueles que viraram... bichos!

Edi Longo,
SBAT 030899
Dedicatória:

A todos que fazem da sensibilidade
o instrumento que embeleza
com maestria e sutileza
nossa conturbada humanidade!

A você:
palhaço que ri,

mesmo chorando por dentro,
vítima da desgraça humana.

A você:
poeta que sofre,

mesmo rindo da máscara
hipocritamente social.

A você:
escritor que guarda em si

o muito da invenção mundana.

A você:
público que espera de todos os citados
compaixão pela roupa frágil

de nossa alma imortal!

www.edilongo.@.com.carinho
São Paulo, Brasil.
SBAT 030899
Escatologia poeticamente feminina

Há coisas que não me descem nunca, mas nunca mesmo, a seco pela garganta
verdades preconcebidas que todos aceitam, sem qualquer dúvida ou descrença
engolem histórias sem pé e sem cabeça, que a minha indignação se agiganta
e riem felizes de si, seguros na ignorância, crendo-se donos de uma vida intensa!
Que felicidade imensa!

Mas, eu, cá nos meus doidos desvarios de poeta insana e lírica, com Deus vivo a brigar

Ele, deve me dar crédito por pena, pois atura meus devaneios com louvável paciência!
Outro dia, depois de muito tropeçar nos meus loucos pensamentos, resolvi O questionar

Ele nada falou, mesmo porque se o fizesse, tornar-me-ia uma Prêmio Nobel da Ciência!
Que competência!

Mas, cá entre nós, vejam se não tenho razão no meu justo e magistral questionamento
descobri, acreditem se puder, que a mulher é uma autêntica obra escatológica
vejam: se viemos de um osso (sem tutano) e parimos esse osso em forma de pagamento,
então, somos osso engolindo osso, uns até têm o que sugar, dignos de obra antológica
Que profecia sem lógica!

Vamos, aliem-se a mim, aconcheguem-se à minha tresloucada e amarga reflexão
se Deus queria tirar de Adão qualquer pedaço e à Sua Semelhança, criar sua outra parte
por que, então, não nos fez de uma alcatra, um belo filé mignon ou mesmo do coração?
Somos, assim, na história, vejam bem: o pedaço mais barato de um animal no abate
Que bela obra de arte!

Não acham que isso é pouco, pra quem gera, dá a luz e forma própria à vida universal?
Por que, digam-me, teve uma atitude assim: um sopro para Adão e para Eva um escarro!
E Você, Deus, para não ficar por baixo, dir-me-á retumbante na Sua Voz monumental,
ora, minha filha, aquiete-se, não acha melhor ser de carne do que de um mísero barro?
Que grande tirada de sarro!

Mas, Deus! Às vezes, eu acho que Você vive se escondendo com demasiada cautela
que coisa, não poderia ao menos, dar -nos uma origem mais nobre e mais charmosa?
Pra que nos criar, como moscas de açougue e apenas nos legar uma fraturável costela?
E por uma coisa tão vulgar e tão barata ainda temos que aturar uma dívida monstruosa?
Que ação mais vergonhosa!

Não pense que me engana com Sua bela mas injusta dialética , pois sinceramente acho
que poderia nos ter feito apenas como uma simples e pequenina gota d’água
pois se unisse o barro à ela, seríamos ambos um só corpo, desde o início fêmea e macho
e assim nós estaríamos plenamente empatados, sem disputas ou qualquer tipo de mágoa
qual cachoeira formosa que num belo rio deságua!

Além de tudo isso, temos que agüentar quietas as duras cobranças do mundo:
dupla jornada de trabalho, cargos iguais e salários diferentes, ônus de estrutura familiar
sem contar com o pinga-pinga da mensalidade sanguínea, com dores que batem fundo
mas se a mesma falhar, ai de nós, logo mais vem mais uma boca pra gente alimentar.
Que situação singular!

Nove meses de barriga, abstinências, dores e mais trabalho pra orientar a nova vida!
E as injustiças, os preconceitos? Ah, jamais nos faria de barro, nós somos feitas de aço!
E, Deus, quando ao nos revoltar, escrevendo as nossas leis, tentando mudar essa briga,
calam-nos, violentam-nos e a ONU acha-nos ressarcidas ao nos dar o dia oito de março!
Que fracasso e que cansaço!

Bem, para terminar, sei que apesar do descanso, o Senhor é ocupado e muito inteligente
sim, pois se autoconcebeu, não é? Aham, pra não dever à mulher o fato de ter nascido!
Pois Lhe digo com orgulho, eu adoro ser mulher: sou forte, não há dor que me arrebente
mas, se de um homem nos gerou, porque diabos (desculpe!), o processo foi invertido?
Que mudança mais sem sentido!


Edi Longo,
08 de Março
Dia Internacional da Mulher.

Com as mãos vazias

Já passava das duas horas e era a décima vez que Zita saía à porta. Voltava, olhava para os irmãos e dizia enfaticamente: “ele já vem. Se avexem não, eles vem já”.

O sol causticante; o chão seco e partido, as árvores peladas de folhas e de vida não geravam nem um pedacinho de sombra para as crianças brincarem embaixo para matar o tempo infalível. Chico chorava. Zequinha apenas a olhava, sem dizer nada. Aquele olhar a feria mais que mil lamúrias!

Zita tinha que ser forte, era a mais velha e tinha que segurar a fome dos dois e a dela própria. De repente, lembrava-se de uma cantiga. Começava a cantar, mas o ronco do bucho era mais alto e encobria a vozinha fina e fraca.

Chico ensaiava uns pequenos passos vacilantes na sala de chão batido; caía, além da pouca idade, as perninhas eram magras e não agüentavam segurar o peso do corpo entupido de vermes. Tinha só um ano e já sentia as primeiras pancadas de uma existência árida, mas pelo menos não era consciente nem tinha os olhos tristes e secos de Zequinha.

Zita já estava se transformando numa moça bonita, apesar da ossada apontando sobre o seu corpo jovem. Tinha doze anos e a mãe tinha dito que logo-logo, ela já podia se casar e ter uma casa caiada, com bastante comida, um roçado prolífero, um jardim com bastante flor, vestidos de chita e nunca mais de saco.

Ah! O seu noivo ia ser um cabra forte; seus cabelos iam ser mais claros do que a água lá do açude quando cheio; seus olhos negros e serenos iam ser mais vivos do que os olhos da piaba e, carinhosamente ia chegar num dia de muita luz, e ia dizer, segurando sua mão: “Dona Madalena, tenho orgulho em pedir sua filha em casamento”.

Ia ser lindo, lindo! E, ela risonha e rosada ia esconder a cara no ombro como toda donzela das redondezas faziam, e de cabeça baixa, ia esperar o consentimento da mãe. Seu vestido de noiva ia ser mais branco que a lua cheia e, ela com os olhos brilhantes de felicidade, ia parecer a estrela que vira cair por cima dos montes lá distante. Como ia ser bom, se ia.

Infelizmente, a realidade existia no puxão de saia de Zequinha: “e se foram embora que nem painho?” Ela estremece levemente, retrucando rápido: “tu tá doido? Acha que mainha ia fazer uma safadeza dessas? Talvez já esteja na lida. Tu vai vê, gorinha mesmo, Tião aponta lá na ponta do caminho com as mãos cheias das coisas. Parece que tô inté vendo: macaxeira; farinha; feijão-de-corda; carne-seca, até um taco de queijo-de-coalho”!

Zequinha escutava com a baba escorrendo pelo canto da boca, comendo avidamente, na imaginação, a comida que a irmã inventara.

De repente, seus olhos inquisidores, alegra-se com uma idéia: “e se a gente pedisse um pouco de açúcar prá Dona Sofia? A situação dela é melhor que a nossa. O marido volta, painho não. E, depois, ela não é madrinha de Chico? Pois é, então é que nem mãe, não vai negar nunca”.

Zita não espera outro pedido. Sai num pinote louco, os cabelos negros nadando ao vento, os olhos excitados e o pensamento implorando prô Padim Ciço ajudar a convencer a vizinha. A casa era quase ao lado da sua, mas chegou tão cansada, que parecia ter corrido mil léguas.

Falou mais rápido do que o próprio desejo, como se a mulher, sem o devido tempo para pensar, fosse se convencer mais depressa: “será que a senhora não podia emprestar um tiquinho, bem tiquinho mesmo, de açúcar”?

Esperou dois intermináveis segundos, infinitos. Dona Sofia pigarreou e seu coração acelerou as batidas. Quando alguém pigarreava diante de um pedido, era porque o negócio não ia dar certo. Já tinha experiência. Sempre era ela quem pedia para os vizinhos, pois a mãe todo dia saía com o sol despontando para ver se conseguia algum lugar para trabalhar, desde que o pai fora embora.

As pernas bambolearam; o frio na barriga vazia aumentou; a esperança atrofiada se escondeu por entre os dentes cerrados e o peito calou um grito de raiva, quando escutou aquela voz triste: “tenho não, acabou”. Insistiu, apesar do resultado previsto: “aca...bou? Tudinho, foi”? E a maldita sentença foi mais uma vez confirmada, seca, dura: “tudinho. Quando Severino chegar à noitinha, eu arranjo”.

À noitinha? Estava com fome agora, não podia adiar a fome. Estava cansada de esperar. Esperá-los que não voltavam, esperar o pai que não voltava nunca mais. Esperar até o vizinho que só voltava à noitinha. Queria que o céu escurecesse já, mas prá mandar chuva, não prá esperar um vizinho que nem sabia se ia lhe dar qualquer migalha.
Pensava na mãe. Como a mãe sabia das coisas! E ela se orgulhava da sabedoria da mãe. Dizia coisas tão lindas, contava histórias doces, mas...eram histórias, não era açúcar que adoçava água!

A mãe dizia que ela era seu braço direito! Na ausência dela, era ela quem cuidava dos menores; cozinhava, quando tinha; lavava, quando tinha...água. Bem, era só uma “meio” dona-de-casa. Só não era inteira porque só fazia as coisas...quando tinha. Mas era muito importante! Encheu o peito de orgulho, estufou-o inteirinho, jogou a bunda prá trás e ereta, voltou prá casa.

Zequinha esperava sentado no batente da porta. Ela entrou absolutamente séria, evitando, como sempre, o seu olhar. Ao ver as mãos vazias da irmã, dava socos na parede indignado: “merda, num arrumou nadinha? É esse o braço direito de mainha, é?” Zita nem respondeu. Dizer o quê? Fica apenas olhando triste para o irmão que sai em disparada.

A camisa rota e desfraldada, totalmente aberta no peito magro, parecia galopar fora do corpo. Ele tinha visto seu Pedro passar perto da casa com um pacote na mão. Ele trabalha prá seu Anastácio e isso significa dinheiro, que significa comida. Isso era mais do que certo.

Enquanto ia mastigando essas idéias, mastigava antecipadamente o conteúdo do pacote. Devia ser macaxeira, farinha, feijão-de-corda, queijo-de-coalho, nossa mãe, quanta coisa! Pelo menos a macaxeira já dava um jeito! Mas...macaxeira sem o sal? Virgem Santa, ia ter que praticar dois pecados juntos, tinha que roubar também o sal.
Mas não carecia ficar tão preocupado, quando fosse dia de procissão lá no Sítio de seu Anastácio, ele ia pedir prá Padim Ciço perdoar. Ele ia compreender.

Não era nada tão grave assim. Só dois pecados bem baratos, talvez valessem duas ave-marias, dois pai-nossos e um dia sem brincar no açude quando tivesse cheio. Cheio?!? Só no dia de São Nunca!

E depois, a mãe sempre dizia que Padim Ciço era amigo das crianças, feito Jesus. Afinal só tinha dez anos, devia ser criança ainda. Ou será que não? Engraçado, não se sentia criança. Não sabia bem porque, mas se sentia homem. Macho. Cabra muito do macho. Pensava até em dar um jeito, se bem que roubar não é coisa de gente de bem, como a mãe dizia. Roubar e matar.

Mas ele achava o Lampião um baita cabra macho, um herói! Ele matava e roubava, mas era um herói. Ave Maria, se a mãe pudesse entrar nos seus pensamentos ia ser uma surra daquelas! Credo em Cruz, é bom nem pensar nisso.

Lampião herói! Imaginem! Padim Ciço ia pedir mais penitências. Melhor desviar esses pensamentos, aliás, prá que praticar um terceiro pecado assim à toa, só por causa do merda do Lampião? Não, tá decidido: só praticava pecados que valessem a pena, como a comida.

Não via a hora de chegar em casa e mostrar prá Zita a macaxeira e o sal. Ela ia se orgulhar dele e nunca mais ia chamá-lo de criança. Pronto. A casa do seu Pedro estava ali na sua frente. Agora tinha que ter peito e provar prá Zita que era um homem.

Deu a volta pelos fundos do quintal, analisou a cerca de avelãs e arame-farpado, mediu o salto prá não cair esbodegado em cima dela e tomou distância. Jesus, se num desse certo, avelãs ardia que nem ferida braba quando caia na pele. Seu Pedro tinha cachorro? Não, claro que não. Como iria sustentar? Então o caminho estava livre. Não se via ninguém por perto. Preparou o salto e as pernas lhe faltavam na hora, envergando-se quase sem forças. Diabo de fraqueza, não estava nem podendo se erguer, quanto mais pular uns dois metros de altura! Bem, pensando bem, a cerca não podia ser tão alta assim. Arame farpado é caro. Era ilusão da vontade. Preparou o último e definitivo salto, quando sentiu que a terra faltava aos seus pés. Estava no alto. Virou devagarzinho o cangote e seu Pedro em carne-e-literalmente-osso, suspendia-o pela gola da camisa, as pernas balançando no ar. Sentiu um medo tão grande que se tivesse algo por dentro, fazia ali mesmo. Mas, mais ágil que o velho homem, desvencilhou-se rapidamente, deixando nas mãos dele apenas uma manga surrada de camisa.

A carreira de volta foi mais rápida e mais penosa. As lágrimas corriam sem que quisesse. Um ódio surdo se acumulava na goela, doendo. Odiava chorar. Achava desperdício de água. O que ia dizer pra Zita? Homem, quem dera! Ele era um grandessíssimo jumento, tinha mais é que andar de quatro, olhando sempre prô chão. Enxugou as lágrimas com raiva e ficou esperando por um momento, com o cheiro da macaxeira nas ventas. Zita não podia vê-lo chorar, isso é que não.

E a mãe? O que estaria fazendo? Gostaria tanto de ajudar, mas era muito franzino e os empreiteiros não gostavam de homem franzino.

A mãe disse que mais uns dois anos e ele já estava pronto prá enfrentar a vida. Doze anos, que merda, num chega nunca. Quando tivesse doze anos...Ah! Ia se emburacar pelo mundo afora. Ia pra Sumpaulo, num pau-de-arara ou mesmo na rabeira de um caminhão de carga. Ia trabalhar, ajuntar bastante dinheiro e depois comprava uma casa, bastante comida e vinha buscar a mãe e os irmãos.

E nunca mais ia esperar aquele velho barbudo e muito do mentiroso que no Natal nunca vinha. Ele mesmo ia comprar uma viola e um radinho de pilhas pra ele; uma saia bem rodada de chita prá Zita; uma bola prô Chico e um terno com gravata prô Tião. E prá mainha? Nossa, botara a coitada em último lugar! Mas, ela sabe como é importante e ia comprar uma máquina de costura e um véu preto igual aos das beatas. Ah, e todos iam ter que estudar, até mainha, prá desenhar as letras no papel.

Deu uma pigarreada, endureceu o corpo e entrou de cara amarrada na sala já escurecendo. Zita somente o olhou de rabo-de-olho, sem perguntar nada, porque não tinha nada para perguntar. Encolheu-se num canto com Chico no colo e ficou esperando por eles que não voltavam.


***

O caminho parecia um bolo retalhado. Era um córrego seco, coisa comum de se ver naquele sertão ardente. A terra ardia debaixo dos sapatos furados. Madalena ia mais à frente, seguida por Tião que andava cabisbaixo e devagar. De vez em quando, ela parava para esperá-lo, levando-o, às vezes, montado nas próprias costas.
O sítio de seu Anastácio dava mais de duas léguas e a fome e a sede dificultava ainda mais a caminhada. Madalena tinha o rosto ainda jovem, mas já franzido de pequenas rugas. A testa transparecia os pensamentos múltiplos e desencontrados. Ora pensava nos filhos que ficaram em casa, ora pensava no emprego que precisava, ora pensava com mágoa na fuga do marido. Homem não agüenta o tranco, acha mais fácil fugir do choro de criança e evitar os problemas. Tentava ainda desculpar a falha de caráter do marido.

Enquanto ia pensando, as mãos esqueléticas e cheias de calos iam desfiando as contas do rosário de pedras que ganhara de Januário no dia do noivado, há treze anos. Ela só tinha treze anos. Então, só tem vinte e seis e por que parecem tantos?

Lembrou-se do dia que ele chegou em sua casa e disso prô pai: “quero me casar com essa cabrita, como tá bonita, parece até uma calunga!” e o pai respondeu orgulhosamente: “é tua, Januário, é só marcar a data e nois acerta tudo”. Fora feliz, apesar dos sofrimentos, dos maltratos, mas pra ela, felicidade era ter os filhos prá cuidar e o que comer todo dia. Só isso. Agora, Januário sumira com cinqüenta por cento da sua felicidade, deixando só o outro cinqüenta prá ela cuidar. Não deixara nem o modo de fazer isso.

Como vai ser, se o homem souber que ela é mulher dele? Mas seu Anastácio ia compreender, lá isso ia. Como ia ser bom. Ia trabalhar, receber o pagamento no final do dia e toda tardinha, ia levar macaxeira, carne-seca, enfim, a outra parte de sua felicidade. Já via a filha correndo e gritando ao seu encontro: “a mãe vem vindo, tá com as mãos cheinha de coisas!”

E não via a hora de fazer uma surpresa no Natal prôs meninos. Ia comprar uma saia bem rodada de chita prá Zita; uma viola e um radinho de pilhas prô Zequinha; um terno prô Tião e uma bola bem grande prô Chico. E prá mim? Ah, se sobrar, vou comprar um véu bem bonito para receber Jesus Cristo feito uma senhora respeitável, na hora da comunhão.

Um suspiro enorme rompe do seu peito, volta à realidade e apressa os passos. Abaixa humildemente as costas e manda o filho montar pra diminuírem a distância que parecia infinita. Senhor Deus, ajuda que nós chegamos. Há que se ter fé, muita fé mesmo. E esperança.

Suspira mais longamente, toma coragem, bate à porta e espera. O capataz manda esperar numa sala semi-escura, que deixa entrever apenas o retrato de um homem bem vestido, sorrindo, com um chapéu branco e com uma boca grande, cheinha de dentes de ouro.

Virgem Maria, o homem é rico mesmo, mas se ele rindo é assim, como será quando fica brabo? Pior ainda, como será quando a gente vem pedir alguma coisa?

Valha-me, Nossa Senhora! Tremia feito vara-verde, sentia todos os ossos do corpo chocalhando, as mãos se apertavam como se quisessem se atracar.

Depois de quase uma hora que parecera um século, surgiu o tal homem da boca de ouro. Ele nem respondeu ao seu frágil “boa tarde!”, sentou à mesa grande e ficou cutucando os dentes com os dedos, arrotando e olhando simplesmente.

A voz calou, murchou, morreu. Por que será que me olha assim? Talvez esteja me avaliando pra saber que tipo de trabalho pode me dar. Bem, a roupa era velha, mas limpa. Mas...com essa ossada toda aparecendo, bem, é melhor esperar.

Esperou milênios. De repente, assustada, ouviu aquela voz que mais parecia um trovão perguntando: “quantos anos tem? quantos buchos? vive mais teu cabra?”

Ave, isso tudo e de uma só vez! Fez o que podia fazer. Respondeu também a tudo de uma só vez, com medo de perder totalmente aquele fio de voz e, principalmente, por estar feliz de ele não saber quem ela era. E ele: “se teu cabra foi embora, boa coisa tu num dá. Pode ir que não tenho serviço prá tu não”.

Uma descarga elétrica parecia tê-la fulminado. Num segundo, pensou em mil argumentos para convencer ao homem que era trabalhadeira; que não tinha culpa se o marido fugira com o dinheiro da última safra dele; não tinha culpa se ela e os filhos eram gente e, mesmo sem ter, tinham que comer; não tinha culpa se não nascia o que plantava; não tinha culpa se não chovia, e principalmente se não a deixavam encontrar uma oportunidade prá viver.

Queria dizer tudo isso mais uma vez de uma só vez, mas só conseguiu balbuciar: “senhor, seu Sítio é o único das redondezas, onde vou encontrar trabalho? Posso lavar; capinar; limpar suas botas; fazer a comida dos peões, sei lá, posso até costurar e...”

Parou diante daquele olhar de pedra.

Não sabia mais o que prometer em troca de um simples trabalho e ficou olhando aquele homem que tudo podia, jogar na sua cara que estava precisando de mulher para os seus peões. Que os rapazes solteiros estavam meio arredios por falta de vadiagem e, o pior, já andavam rondando as donzelas dele.

Mais uma vez, Madalena sentiu um gosto amargo de fel na boca, o bucho roncou mais forte, o ódio subiu na goela seca, a raiva contida estava querendo explodir no peito tísico e a imagem dos filhos com fome, dançavam na sua frente com as mãos esticadas, pedindo, mendigando migalhas. Não podia fraquejar, voltar com as mãos vazias, não, isso não podia.

Engoliu a seco a saliva escassa e o pudor ultrajado e, tentou argumentar mais uma vez: “senhor, isso é duro prá uma mãe de família, o senhor sabe. Valho mais do que dois de seus peões, me deixe mostrar que posso. Não há homem nesse mundo que tenha mais vontade do que eu. Garanto”.

O homem nem lhe respondeu, virou as costas e ia saindo quando, de repente, perguntou: “a não ser que tu tenha uma filha, tu não tem não? Mais moça, dá melhor prô ofício”.

Pálida, como se tivesse levado um soco na boca do estômago, Madalena gemeu um palavrão indecodificável. As mãos arrebentaram o pequeno rosário. Zita. Sua Zita para os peões. Não, não ouvira errado. O safado ainda repetiu.

Que vontade de dar um soco na cara desse filho de uma égua e quebrar todos esses dentes de ouro que mangam de sua mágoa! Não fosse o desvario do marido, teria até orgulho do que ele fizera àquele excomungado.

Januário, filho de uma quenga! Que vontade de te encontrar e te obrigar a servir de mulher prôs peões enfileirados! Sentia-se um animal embrutecido, um subumano, vazia por dentro, agora, até de sentimentos.

Com a cabeça enfiada no próprio íntimo, olhou mais uma vez prô retrato sisudo do riso cheio de ouro, fulminou-o com o olhar enlouquecido e retirou-se, tropeçando nos próprios pensamentos desvairados.

Como num filme, só via os filhos à sua frente. Zita chorando embaixo de um brutamontes; Chico implorando com as mãozinhas inutilmente estendidas; Zequinha com aqueles olhos negros e indignados e, Tião chupando o dedo fino e coçando o umbigo.

E aquele filho de uma égua do Padim Ciço tinha dito que Deus olhava para os pobres. Aonde? Quando? Deus não tava ligando para o seu sofrimento, devia ser um safado como os outros. Era tão safado que não nascera mulher só prá não ter o trabalho de parir, de criar e dar de comer para os filhos. Era um homem também. E como todos, ainda era preguiçoso que precisou descansar no sétimo dia. Mulher não, só descansa quando morre. Se ele não dava trabalho, por que é que num dava chuva pra nascer o que plantava? Não estava querendo nada de graça.

E pensar que estava com os joelhos que eram um calo só de tanto ajoelhar prá rezar e pedir, prá pedir, sempre pedir, pedir sempre... prá quem? Será que tinha alguém ouvindo? Se ouvia, por que não ajudava nunca?

***
Já estava escurecendo quando avistou a pequena casinha de sapé e seus olhos fincaram-se no chão, quando avistou os filhos que vinham correndo em sua direção.

Ia correr ao encontro, mas estancou quando ouviu: “Zita, mãe está com as mãos vazias, não traz nada não”.


Zequinha tropeçava nas palavras. Machucava sua visão, as mãos vazias da mãe.

Madalena cambaleando nem entrou em casa, falando rápido pra que os filhos não retrucassem: “mainha vai em todos os vizinhos; na casa das mulé dama, até nos quintos dos infernos negociar com o próprio Diabo, mas não volta com as mãos vazias, viram? Depois acerto minhas contas com Deus”.

Com as pernas doloridas; as costas envergadas; as vistas ressecadas de tanto chorar e, principalmente, com os sentimentos retorcidos e gemendo, saiu mais uma vez, sem ter coragem de olhar de frente prôs filhos que arregalavam os olhos tristes e esperançosos, olhando-a se afastar, mais uma vez, com a vida rastejando nos calcanhares.

Edi Longo,
SBAT 030899

Monday, May 09, 2005

ENIGMAS SENSÍVEIS

Os quartos guardam enigmas indecifráveis
ninguém conhece ninguém mais do que cada um
pensa conhecer a si mesmo
o espelho na parede mostra apenas o que você vê
ou só o que quer ver:
se quer idade, só vê o amassado da pele
se boniteza, olha-se apenas para o que lhe parece bonito
assim será sempre
ao nariz torto, entortamos a visão
pior ainda fazemos quando não nos damos conta
do quão torta é nossa boca
falamos muito
agimos pouco
lá dentro, nas paredes vermelhas do coração
apenas a irrefutável verdade mora.
A primeira incógnita da humanidade é a alma do homem
lá tudo está impresso
tudo tem seu preço
como um código em barra do supermercado da vida.
Se boa alma, o crédito.
Se má, no final do filme o débito.
Tudo se esconde
como uma urgência urgentíssima
de fazer algo
e não se fazer nada
pela inércia
pela desconforme multiplicidade de cada ser
...não ser
seria melhor?
Não ser
e nada saber
seria melhor ainda.
Ah, enigmas sensíveis de sons e sentidos!
Assim como os bebês que nada sabem
do que achamos que sabemos
mas sabem a hora das sensações.

Edi Longo,
SBAT 030899
SÚPLICA CONTEMPORÂNEA
Pai nosso, que estais nos céus
Desça um pouco até nós
para abrandar a fúria que há nos chefes, aquecer o frio, saciar a fome, desativar as armas químicas, desmistificar o demônio,
remarcar o seu rebanho.
Vosso filho plantou a semente.
A árvore secou.

Santificado seja o Vosso nome
Em nossos ritos, sempre o fazemos,
uns interiorizados, outros mecânicos.
Mas precisamos de alento e respostas
pois as preces parecem ficar
paradas nos buracos do ozônio
por nossas loucuras fabricados e não chegam até Vós.
A voz calou.

Venha a nós o Vosso Reino
Não somos dignos de entrar em Vossa Seara, bem o sabemos.
Homens sujos que somos, grãos ínfimos que ousastes fazer de espelho,
mas em sendo feitos por Vossas mãos, igualmente ousamos implorar
que não nos abandone agora quando mais necessitamos de Vós.
Os pagãos erravam por ignorância, nós por esquecimento.
A mente apagou.

Seja feita a Vossa vontade
Sabemos que todas as guerras, todos os conflitos, não foram vontade Vossa
mas, suplicamos que amenizai os corações duros
e que nesse início de um novo milênio, com uma guerra à vista,
Vossa vontade seja mais respeitada e ela seja abortada,
pois também sabemos que nenhum pai quer para o filho tantas misérias.
A paz suplicou.

Assim na Terra como no céu
Esquecemos do quão pequenos somos
do quão falíveis somos
do quão mortais somos
de quanto precisamos Louvá-lo aqui, onde brincamos de homens,
para depois podermos usufruir de Vossas benesses aí, brincando de almas.
A fé falhou.
O pão nosso de cada dia nos dai hoje
E amanhã e depois de amanhã e depois de depois de amanhã. Sempre.
Algumas mesas têm pão, outras não.
Alguns pães são até doados pela caridade de alguns bons corações,
mas param nas mesas dos atravessadores,
abarrotados de manteiga e que nunca, quando caem, os lados bons ficam no chão.
O amor abortou.

Perdoai as nossas ofensas
As nossas falhas, a nossa falta de compaixão, de união.
A nossa incapacidade de aprender a continha de dividir! Só a de mais e de subtração! A de multiplicação só a fazemos quando se trata do nosso poder.
Nunca para multiplicar os peixes e os pães para distribuir aos que suplicam.
Estamos perdidos, como a ovelha que se distraiu observando uma flor, perdendo-se de seu pastor e não sabe o caminho de volta.
O encanto murchou.

Assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido
Quem?!? O Senhor já ouviu falar de Bush? De Sadan? De bin Laden? Hitler?
Todos os políticos insanos que envergonham os países oprimindo os excluídos?
E o que me diz dos traficantes de drogas, de armas, de mulheres, de almas, de crianças para serem vendidas num banco de órgãos?
Mesmo Cristo hoje não acreditaria nessa frase.
E a perseguição aos cristãos em Roma? E a perseguição aos judeus em Auschwitz?
O terrorismo vingou.

E não nos deixeis cair em tentação
Mas continuamos cada vez mais querendo mais. Queremos cada vez mais acumular riquezas e brigamos a Guerra Santa.Tudo em Vosso nome!
Continuamos cada vez mais pisando no mais fraco. Iran, Iraque, Israel, USA...que usa e abusa da humanidade desorientada, achando que pode mandar nos territórios alheios, nas leis alheias, nos minérios e florestas alheias.
Continuamos pequenos caracóis que vivem enroscados no próprio corpo.
Vosso nome manchou.

Mas livrai-nos do mal
E do mau.
Livrai-nos dos trabalhos escravos, da mão que bate, da miséria que tira a marca do cidadão, da ignorância que cega, do ódio que mata, da inveja que enfeia, da dor que cala a alegria de existir, da ambição, do desalento, da guerra, da soberba.
Livrai-nos do negativismo, do escuro, da solidão, do medo.
Livrai-nos, principalmente, do desamor.
A vida implorou.

Amém.
Assim seja:
Deus, God, Alá, Adonai, Tupã, Oxalá!
Hosana nas alturas!
Quem quer que Sejas, continues a iluminar a nossa pobre Terra Azul
tão tristinha, tão desolada, tão calada dentro de suas próprias dores.
Desculpai o tanto que pedimos ao Senhor e nunca retribuímos à altura.
Desculpai a nossa súplica, a nossa constante súplica.
Desculpai tanta fraqueza!
O Planeta chorou!
Edi Longo,
Cristã, poeta, eterna sonhadora,
às vezes incrédula,
mas nunca insensível à dor da Terra.

Uma homenagem à Filó, amiga sempre pela idéia desse adaptação
São Paulo, Março de 2003.



SEM TEMA

Quero escrever sobre algo absolutamente inédito
Fico horas pensando. Pesando tudo com mérito
Penso no amor – lugar comum – ninguém daria crédito!
Ainda mais que agora já se tornou até cibernético.

Mudo o enfoque ao ver no vaso uma linda flor
Que horror! Bato na boca com muita força pra sentir dor
Flor é bonito não resta dúvida, tem seu valor
Mas no meu peito o que anda faltando é ...é...muito calor!

Penso na história - perdas e vitórias - que belo tema!
Quem escolher? Herói ou heroína? Outro problema.
Visito livros, leio museus, sinto músicas...que dilema!
Assim perdida, olho o papel que me suplica por um poema.

Sem ter pretexto, recolho o texto, jogo no lixo
Nada há de novo, tudo banal, grito qual bicho
Olho ao redor, lugar não muda, mundo prolixo!
E aos meus pés um sereno olhar me olha fixo.

Olho bem dentro do olho terno do animal que sabe menos
Mas seus olhos amenos por muito menos atende acenos
Fazem-me parar de sentir esses inúteis medos obscenos
Ora, a inspiração que atenda aos poetas mesmo pequenos.

Descobri que nada é novo tudo é uma recriação do que foi feito
A forma de cada um dizer aquilo que já foi dito de outro jeito
É o que torna algo mais artístico, poético, bonito, mais perfeito
Pois mundo é mundo e rola fundo no mais profundo de qualquer peito.

Qualquer outra arte que fora do mundo se reproduza
Não é normal, coisa do além, sem autoria e é reclusa
Do homem vivo ainda precisa, pois que se usa
A sua mão pra dar vazão àquela alma com que se cruza.

...E continuo sem tema
e agora muito mais confusa.
CANTIGA À BEIRA-MAR

Sou teimosa que eu só
Não desisto de tentar
Namorando sempre o mar
Às vezes fico com dó

Lancei um olhar prô mar
cansado de tanta maré
-Seu mar, não vai descansar?
-Não posso dar marcha à ré

não desanimo, insisti
-seu mar, por que tanto repuxo?
- dos desencantos eu fujo
cantei segredos em mi

no rochedo a sonhar
passei a mão em seu peito
muito carinho e respeito
fazendo música em fá

sussurrei uma cantiga
dos tempos de arrebol
uma emoção antiga
jogos embaixo do sol

o mar jogou uma onda
que veio me refrescar
parecia uma ronda
que vai pra cá e pra lá

no horizonte assisti
um colorido desenho
Deus estava com empenho
pintando um quadro de Si

Recolhi-me em oração
deixando o Pintor só
guardando o coração
mortal e feito de pó. Que dó!

Edi Longo,
SBAT 030899


Computando...

Acessei a vida
Acessei a ação devida
Acessei rumor.

Digitei tudo na memória
Digitei toda a história
Digitei todo clamor.

Deletei o “creio”
Deletei o feio
Deletei qualquer dor.

Salvei o grito da vitória
Salvei o orgulho da glória
Salvei o bom do sabor.

Lixeirei o “meio”
Lixeirei o receio
Lixeirei todo temor.

Computei humanidade
Computei gente e amizade
Computei todo amor.

Edi Longo, uma eclética
poeta sem rima ou métrica
apenas ave poética
com asas da cibernética.
AMOR E HONRA

Luzia cantarola uma canção enquanto rega as flores no quintal. Joel entra correndo deixando o pequeno portão aberto. A mãe resmunga, mas ele corre para casa. Intrigada, ela o segue.

--- Aqui a estas horas?

---Tive uma folguinha e quero trabalhar um pouco naquele projeto. Almoço com a senhora e depois volto para o Banco.

---Não sei como sua mulher agüenta tanto suas vindas aqui. Não faz nem quatro meses que se casaram.

---Mãe, preciso aproveitar o tempo. Tchau!

Joel entra num cubículo através de um alçapão que é encoberto pelo tapete da sala. É técnico em informática e trabalha num grande Banco. Luzia tem o maior orgulho do único filho e procurou, à sua maneira, aceitar a nora. Finge o tempo todo que ela é como se fosse sua filha, mas lá no fundo do peito, sente uma pontinha de ciúmes por ver o seu Joel divido. Ela o queria inteiro pra si, como sempre tinha sido até aparecer "essa"... Bem, o que está feito, feito está.
Encaminha-se para o fogão, continuando a cantarolar baixinho, pois não queria atrapalhar o filho no seu maravilhoso projeto. Se este projeto fosse aprovado pelo Banco, Joel estaria com a vida feita. Assusta-se quando vê na porta da cozinha dois policiais.

---Desculpe, Dona Luzia, mas o portão e a porta estavam abertos.

---Entre, rapazes, querem um café? Acabei de fazer.

Ela é muito conhecida no bairro. Famosa pelos seus quitutes e, principalmente, por ser a responsável pela Igreja, onde enfeita a casa divina como se fosse a sua e recebe os fiéis como se fossem seus convidados.

---O Joel está por aqui?

---Por quê?

---Dona Luzia, desculpe, mas temos que dar uma olhada na casa. O Joel precisa vir conosco até a Delegacia.

---Por quê?

---Recebemos uma queixa do Banco. Parece que ele fez uma grande bobagem.

---Como?!? Estão falando do meu filho? Estão falando de Joel de Andrade Viana?

---Dona Luzia, nós crescemos com o seu filho e o conhecemos bem. Estamos falando dele sim. Então, podemos dar uma olhada?

---Não entendo como contratam pessoas tão burras para a polícia! E vocês acham que ele iria se esconder aqui?

Apesar de todo o seu discurso, os dois policiais vasculharam tudo. A casa era pequena e a inspeção foi curta. Luzia estava gelada por dentro. De repente, parecia que uma coroa de espinhos tinha sido enfiada no seu peito, não na cabeça. Lembrou do filho pequeno, do seu primeiro dia na Escola, da primeira comunhão, da primeira vez que ela o vira com uma mulher, do namoro com a Jandira e o casamento. Ele estava lindo no altar e ela tinha usado até chapéu! Não derramou uma lágrima e permaneceu impassível. Esperou os policiais saírem; trancou a porta, deu um rápido telefonema e entrou resoluta no quartinho.

---Mãe, obrigado.

---O que andou fazendo? Então é aqui o esgoto do rato? E essa tecnologia toda é para conseguir o queijo podre? Por isso não posso nem fazer a limpeza?

---Mãe, a gente precisava do dinheiro para a sua operação.

---Preferia ter morrido.

---Mãe!

---Cale a boca e só torne a pronunciar essa palavra quando devolver o que roubou, além do Banco, de seu pai. Quero o nome dele limpo, entendeu?

Luzia se aproxima do filho e o esbofeteia. Joel fica surpreso. Pela primeira vez ele estava sentindo o peso da mão daquela que sempre a usou para o acariciar.

---Por que não me entregou, então?

---Porque não mexo no que é dos outros e não gosto que mexam no que é meu. Preferia ter continuado seca e estéril e ter mantido você eternamente na escuridão.

---Mas, então, vai me ajudar a fugir?
---Nunca! Eu queria ouvir a verdade de sua boca e eu mesma quero julgar, eu mesma quero olhar dentro dos seus olhos que... Levante os olhos e me olhe dentro da pupila, Joel de Nada! Como pode sujar o que não é seu? A única coisa que seu pai deixou; você pisou, manchou, cuspiu e marcou para o resto da vida.

---Eu pensei que me amasse como eu amo a senhora.

---Por amar você demais é que quero você como eu fiz. Limpo. Sem máculas. De cara erguida, nunca com os olhos no chão, Joel de Nada!

---Mãe, perdão!

---Eu já disse para me chamar novamente assim quando pagar pelas duas coisas que roubou! E ainda por cima, mentiu pra mim. Disse que tinha conseguido um empréstimo. Mas foi mais fácil tirar para não ter que repor depois, não é? Joel de Nada! A coisa material, conseguirá. A espiritual e imorredoura, fingirei receber de volta. E mesmo assim, será preciso muito sabão nessa cara para que eu possa novamente beijá-la. Vamos.

---Aonde?

---Aqui está o telefone. Ligue para a polícia e diga que está indo se entregar. Se não fizer isso, eu mesma vou levá-lo debaixo de chicotadas para que fique marcado também no corpo. Escolha: ou vai como homem, ou como cachorro sarnento escorraçado.

---Mãe, eu fiz isso pela senhora!

---Eu estaria bem melhor ao lado de seu pai. Íntegro e com a honra intacta. Eu sempre disse a você que a única coisa que temos é um nome limpo. Sempre disse que o melhor sono da gente é aquele que acolhe nossos sonhos, não os pesadelos. Sempre disse que uma marca em brasa é definitiva e mesmo que não apareça no corpo, aparece na alma, não disse? Não disse, Joel de Nada? Olhe prá você! Vejo diante de mim um corpo sem nome, uma alma com marca.

---Mãe, por favor! Eu já rezei tanto e estou tentando devolver o dinheiro...

---Não sou sua mãe, sou sua julgadora, Joel de Nada. De Nada!!! E para mim, você é o culpado, não importa qual o intento do ato, mas sim o caminho que levou para fazê-lo. Mesmo que tenham chegado a Deus suas orações, elas não chegaram até a mim e continuam vagando pela sua consciência suja.

---Mãe, veja no computador, eu já consegui quase a metade...
---Chega! Mesmo que reponha o dinheiro, quem reporá sua honra? Já que não tem a coragem de agir como um homem honrado, ficará aqui até que a polícia chegue, pois eu mesma vou telefonar. Não grite como um bezerro, pois não quero a vizinhança à janela. Reaja com a frieza dos assaltantes para não sujar ainda mais o nome que não é seu, mas herdado de seu pai. Tenha essa última compaixão para com ele. Ah, já chamei o advogado para acompanhá-lo. A gente se vê quando eu puder olhar você de frente outra vez, apesar da mancha que ficará entre nós.

Luzia sobe a pequena escada como se estivesse carregando o peso de toda a sua vida. Tranca a pequena abertura. Em sua frente uma tela teima em mostrar imagens do passado. A gravidez conseguida depois de anos tentando. A permanência na cama para não perder aquele filho tão desejado. O enxoval feito com suas próprias mãos. O nascimento tão esperado. O primeiro choro. O primeiro contato em seu peito. Sentiu-se sugada e automaticamente tocou os próprios seios. Ah, se pudéssemos adivinhar o que existe atrás de um olhar infantil! Preferia nunca ter tido um filho agora. Sentia-se como se a morte estivesse mamando em seu peito e como um aspirador estivesse sugando também a sua alma. Nem percebeu quando os policiais entraram. Jandira entra junto e se ajoelha diante dela, agarrando-a pelos joelhos. Luzia a afasta delicadamente.

---Acho bonito a mulher defender o seu homem. Obrigada por defender o seu marido, que há pouco perdi como filho. Assim é que tem que ser. Eu defenderia o meu homem até no inferno, mas jamais por falha de caráter.

---Como pode fazer isso com ele?

---Ele fez isso com ele, não eu.

---A senhora vai deixar que ele vá preso? Ele vai morrer na prisão!

---Ele estará mais morto fora dela.

Dirige-se calmamente para os policiais e entrega as chaves, indicando o local.

---Podem levá-lo. Não precisa algemas. Ele já se amarrou em si mesmo. Não reagirá. Apesar de tudo, conheço bem a minha criação. Meu julgamento foi imparcial. Vão. Quando saírem, não liguem as sirenes. Pelo amigo, ajam em silêncio. Apenas um silêncio velado, como o silêncio da morte.

Todos saem. Luzia fecha as portas e janelas. Cantarola baixinho sua música preferida: uma canção de ninar. Senta-se numa cadeira de balanço e deixa-se banhar pelas lágrimas que correm como uma represa aberta, mas sem finalidade. Para quem agora dará a sua luz?




A FLOR DO CACTO

O dia já ia alto quando avistou o pequeno vilarejo. Estava cansada, viajara direto as quatro últimas horas. Antes de entrar no lugar, parou o carro para olhar embevecida o véu de noiva de uma cachoeira cantora que se estendia à frente. O peito aspirou com força o cheiro da mata. Pensou com mágoa no motivo que a levou para tal lugar. Aliás, pegou um mapa, fechou os olhos e parou o dedo. Quando os abriu lá estava o nome: Vila Cheirosa. Apaixonou-se de imediato. Removeria o mundo para encontrá-la. E lá na frente tinha uma placa dando-lhe as boas vindas com este nome romântico acimando-a.

Deitou-se na relva macia e ficou pensando no que faria nos dias seguintes. Nada, ora. O que viera fazer? Encher-se de nada. Encher-se apenas daquilo que não a lembrasse de nada. Tinha trinta anos, era bonita, tinha um mês de férias, uma boa grana e, no passado, apenas um idiota perdido entre papéis inúteis que não soubera dar a ela o justo valor.

---Boas, posso ajudar a moça?

Os últimos raios solares deixavam-na apenas enxergar o brilho de um olhar matreiro.

---Desculpa, mas a moça tá precisando de ajuda?

Levantou-se rápida como se estivesse sido pega em algum flagrante delito e respondeu mais rápida ainda: não, obrigada.

---Não se assuste, moça, mas pensei que...vendo o carro parado e a senhora aí mais parada ainda, pensei que...

---Obrigada, já disse. Está tudo bem.

Entrou no carro e disparou em direção ao vilarejo. Precisava encontrar um lugar para ficar. Estivera tão excitada com a viagem que nem pensara no assunto.

O vilarejo parecia uma paisagem antiga, daquelas que temos num canto qualquer de uma casa de campo. Casas coloridas; ruas com pedras regulares; árvores numa pequena praça; uma Igreja Católica; um pequeno coreto; um pequeno cinema e, claro, uma "Casas Pernambucanas", um "Banco do Brasil" e uma "Agência dos Correios". Inútil, como ela se sentia. Não mandaria cartões postais para ninguém. Aliás, viera ali para não ter obrigação nenhuma com ninguém.

Deu uma volta na praça e nem sinal de um hotel. Um logotipo familiar chamou-lhe a atenção. Ao se aproximar não pode deixar de dar uma sonora gargalhada: ao invés de uma famosa cadeia de lanchonetes, o "M" significava ManéLanche, mas o desenho era escandalosamente copiado. Pensou que seria genial se fosse o famoso palhaço, pois iria cobrar uma multa igualmente escandalosa.

Entrou e uma senhora simpática, com apenas dois dentes na frente, sorriu-lhe banguelamente amável indicando o outro lado da praça onde, com a maior boa vontade do mundo e melhor visão ainda, podia-se ler em manuscrito: Grande Pousada Cheirosa.

---Acho que agora precisa de ajuda, moça.

---O senhor novamente?
---O seu quarto já está limpo e o chuveiro é bem honesto, pode acreditar.

---E pode acreditar que vou procurar outro lugar para ficar.

---A não ser que a moça tenha uma barraca para acampar. Essa é a única pousada que temos e está à sua disposição. Vamos, deixe-me pegar as malas do carro.

Deu-se por vencida. Não tinha nenhuma barraca e a pousada era bastante agradável, coisa que não acontecia com as dores de suas pernas cansadas. A cama era macia, o quarto semi-escuro. Não deixou de admirar as flores silvestres colocadas num vasinho. Sem dúvida, colhidas ainda há pouco pelo seu anfitrião de olhos brilhantes. Ficou observando aquele homem forte que trazia suas malas como se parecessem duas folhas de papel.

---Onde estão os demais?

---Não temos os demais. Mas não se preocupe que a comida é muito gostosa e já mandei providenciar o seu jantar. Gosta de arrumadinho?

---Arrumadinho?!?

---Nosso prato regional. Vai gostar. E depois do banho, pode se refrescar com uma cerveja mais do que gelada. É só ir até à cozinha que estarei lá. Fique a vontade.

Sentou-se na beirada da cama e não pode sentir um tremor. O que diriam seus amigos se a vissem naquele pequeno vilarejo, numa pousada onde era a única hóspede?
Pegou o pequeno mapa da bolsa e foi procurar o tal homem na cozinha.

Ele estava sentado numa pequena mesa, tomando uma cerveja. O cheiro no ar era agradável. A cozinha era bem limpa e arrumada para duas pessoas, com um vaso com as mesmas flores do seu quarto.

---Acho que vou para essa cidade aqui. Pode me dizer como faço para chegar lá?

---A chuva derrubou várias barreiras. Se quiser sair daqui, só se voltar por onde veio. Vamos, tome.

A cidade mais próxima quando viera ficava, pelo menos, há umas duas horas. Sentiu um tremor, mas agora era só cansaço. Sentou-se e sorveu num só gole o copo gelado gentilmente oferecido. Ficou com os olhos parados em lugar nenhum, tentando arrumar um assunto.

---Essas flores são tão diferentes!

---São flores de cactos. Dão raramente e somente nesta época. Está fugindo dele por que?

---Como?!?

---Uma moça bonita como você para ter-se metido numa aventura dessas com certeza está fugindo de algum homem mais do que idiota. E olhe que os pneus da frente estão mais do que careca, sabia? Correu um sério risco. Amanhã providenciarei novos.

---Ah, ah, ah, tem razão: ele é mais do que um idiota. E eu sou muito mais do que ele. Mais do que obrigada pelos pneus. Mas onde está a cozinheira?

---Aqui à sua frente. E não precisa ficar imitando os meus "mais do quês", tá?

Quando viu, já estavam conversando como se fossem os maiores amigos do mundo. Ele era um agrônomo que também fugira de uma desilusão. Abandonou o burburinho de Salvador e resolvera trabalhar no interior do Estado. Era contratado pelos poucos sitiantes das redondezas. A Vila Cheirosa só tinha aquela pousada que estava mal cuidada e por uns poucos reais a comprara, transformando-a num lugar aconchegante. Os poucos hóspedes apareciam nas épocas de vaquejadas, quando os peões passavam por ali para levarem a boiada para ser negociada. Havia também a época de rodeios, as festas dos santos. Fora isso, aquele era seu lar.

Ficou, de repente, como que hipnotizada por aquele homem. Tinha uma beleza rude. Cabelos desalinhados, rosto quadrado, dentes perfeitos. Tinha as mãos grandes e bem feitas. Os músculos bem definidos, não por freqüentar academias e sim pelo trabalho. Ele falava macio, com um sotaque gostoso e quando ria, os olhos riam junto.

Ele abaixou o olhar quando percebeu que estava sendo analisado e se levantou para pegar a décima latinha. Não pode deixar de olhar para as nádegas: redondinhas como duas laranjas. Quase gargalhou lembrando desse comentário que uma amiga sempre fazia quando via uma bunda bem feita de homem. Depois dizem que os homens é que gostam de bunda!

---É a última, obrigada. A comida estava saborosa. Você cozinha muito bem. Agora só quero tomar aquele bom banho e dormir como nunca fiz na minha vida.

---Amanhã preciso visitar alguns lugares a trabalho. As últimas chuvas foram bem-vindas, mas deixaram alguns estragos. Se quiser vir junto.

---Acho que não vou conseguir acordar cedo. Não quero atrapalhar, obrigada.

Mas acabou indo. Os cabelos soltos ao vento no jipe dele. A paisagem local era estranha: umas árvores que começavam a florir, uns poucos animais silvestres e várias plantações de cactos.

---Por que tantos?

---Para alimentar os animais quando a chuva não vier. Eles contêm água e têm a força suficiente para alimentar qualquer porte de animal.

Na volta, pararam na cachoeira. Ele sem qualquer hesitação tirou a roupa e se jogou na água. Ela ficou parada, sentando na grama, observando aquele corpo que se movimentava como se fosse uma onda do mar. Parecia ter a força de um cacto que alimentava qualquer porte de animal.

Mais adiante se encantou com um cacto solitário que tinha uma flor bonita no seu ápice. Levantou-se e foi observar mais de perto. A flor parecia não ter nascido, mas sim ter sido fecundada por aquele cacto másculo e forte.

Olhou para o homem na lagoa e a comparação foi mais que imediata. Ele, ao mesmo tempo em que era um produto bruto da natureza, como o cacto, também sabia ser gentil e suave, como as flores que colocara no vaso do quarto e na cozinha.

De repente, imaginou-se entre aqueles braços, sendo acariciada por aquelas mãos fortes, sendo beijada por aqueles lábios carnudos e... Nossa, estava se comportando como uma vagabunda no cio. Mas, não podia negar o calor que sentia diante dos pensamentos de se sentir amada por aquele homem. Não!!! Viera para esquecer os problemas, não para obter mais um. Aquela flor do cacto podia-se dar porque pertencia à natureza e era ingênua como um animal: mas ela pertencia às convenções. Ela tinha consciência de seu papel social. Sabia optar e era dona de suas vontades. Entrou no jipe, esperando-o.

---Não devia perder tanto tempo em pensar. O que quer que tenha acontecido, dê um chute no que passou e se entregue ao presente. Às vezes, perdemos tanta coisa boa na vida por excesso de análises. E se estava pensando no que eu pensei ontem a noite inteira, empatamos.

---O quê?!?

---Ah, ah, ah, estava brincando. Vamos, entre na água que não me aproximarei de você nem um milímetro, palavra.

---Não! Preciso dar uns telefonemas. Vamos?

---Tome a chave. Vou ficar um pouco mais para refrescar o ardor de meus pensamentos noturnos. A gente se vê mais tarde.
Entrou na pousada e foi direto para o chuveiro para também refrescar, mas os seus pensamentos, como diria ele no seu sotaque delicioso, mais que presentes. Enrolou-se num roupão e desceu até à cozinha para pegar uma latinha de cerveja. Estava geladíssima.

Sentou-se à mesa e ficou tentando rememorar os seus últimos dias no trabalho, mas não conseguia lembrar de nada. Tentou lembrar o porquê que se desgastara tanto com o namorado, mas não conseguia nem lembrar direito porque tinha ficado tão ofendida!

Que droga, só conseguia visualizar aquelas formas de homem nadando naquele lago. Só conseguia visualizar aquela flor incrustada, sendo possuída por um cacto. Adoraria ser apenas aquela flor. Adoraria ser apenas fecundada por um cacto e ficar eternamente naquela paisagem sendo útil para a alimentação de outro animal.

Nem se voltou quando sentiu a mão dele em seu pescoço.

Vestiu-se de cores múltiplas e tenras como aquela flor e, ternamente, deixou-se possuir pelo seu cacto viril e bruto. E intimamente agradeceu àquela flor do cacto por tê-la ensinado a se abandonar à força dos instintos.

E o espaço se encheu de sons, seus ouvidos só tinham sentidos para as palavras meigas que aquele cacto dizia; suas mãos eram avassaladoras; seu sexo, masculinamente gentil. E, assim, tomou-se de poesia e se transformou ela também numa simples flor que permaneceria para sempre dentro daquele cacto selvagem.

Contam os nativos de Vila Cheirosa que os cactos em que as flores sobrevivem muito tempo são raros e, aquele cacto com sua flor incrustada no lago era, segundo a lenda local, um homem e uma moça forasteira que ficaram imortalizados para sempre naquela paisagem nordestina e árida, eternamente amantes.

Claro que ela achou muito terna a história; riu da ingenuidade do povo, mas vestiu-se da carapuça, calou a voz do passado e nunca mais saiu de lá.











Paisagens noturnas

Antes que o dia desperte e o sol entre pelas frestas
antes que o primeiro som ensurdeça os ouvidos
preciso colher palavras, beber fonemas e sílabas
para percorrer minhas paisagens esquecidas
num canto qualquer do pensamento e da fantasia
escrever é como adentrar por inteiro num silêncio
a imaginação e a criatividade se negam a doar-se
se não estou só dentro de mim mesma e no dentro das coisas
senão, perco as sensações que necessito para criar
espero ansiosa o momento mágico que me encontro
com minhas palavras e sílabas e fonemas para
aquecer o meu peito de emoção e assim
na quietude de meu íntimo, busco a forma
que melhor possa descrever as emoções que vão surgindo
como se fossem gigantescas ondas havaianas
que entornam o líquido precioso das palavras
na praia branca de minha imaginação
espero, assim, o silêncio das bocas, o sono abençoado
dos homens cansados da rotina torpe e sombria
e no recanto de mim mesma, deixo percorrer na
tela do meu cinema particular e imaginário
as paisagens mundanas que ajudo a enfeitar
e crio versos, e choro, e rio e me transformo no que sou:
poeta. Que só sabe viver só.
(em grupo se dispersa)
e só sabe encontrar-se na noite, nunca no dia
onde passeia vagabundo e perdido pelas ruas da poesia
percorrendo mundos alheios de personagens inventados
que habitam, como fantasmas, minhas paisagens noturnas.


Edi Longo, Agosto de 2002.
SBAT 030899
Que pena!

Tenho pena
de quem não sonha
tenho tanta pena
de quem não se ama!
Tenho muita pena
de quem não molha a fronha
tenho muito mais pena
de quem não se inflama!
Quem não se inflama
não umedece a fronha
pois não ama
e não sonha.
Apenas tem pena
qual pássaro que voa
com a asa partida
pena pela vida
que pena,
à toa!

Edi Longo, SBAT 030899

SP., maio de 78.

BARCO NA TEMPESTADE

As velas estavam agitadas
o vento uivava um grito lancinante
ele, meu coração marinheiro,
jogava-se pra lá e pra cá
cuidando para não cair na fúria do mar
o barco ia afundar
meu coração ia boiar
como uma tora de madeira
que nunca chega na praia
perdendo-se numa ilha qualquer
limpei a testa do medo
e alinhavei os pensamentos
endireitando-os
a tempestade passaria
como os segundos, os minutos, as horas, os dias
tudo passa
por que não essa ventania?
Levantei, caí, escorreguei
segurei na âncora
sobrevivi
o sol saiu
acalmando meu ciclone
sorri novamente
e acariciei meu barco
que estava novamente à deriva!
Estou viva!
Viva!

Edi Longo,
Tropeçando, mas sempre se erguendo.
SEXTO QUADRO
A TORRE DE BABEL

Minha filha Bruna tinha apenas três anos e nove meses quando fomos vítimas de um atentado. Além dos vários buracos de balas na traseira do carro, ficou apenas o susto. Meu, evidente, porque ela pensou ter sido uma brincadeira de mocinho e bandido e adorava contar para todo mundo.
Na semana seguinte, iríamos para Boston encontrar o meu marido que estava fazendo um curso de especialização e durante todo o trajeto da viagem insisti para que não contasse nada ao pai. Esse foi o meu erro. Ela sempre fazia o contrário do que eu pedia e assim que ele a abraçou, contou a história à sua maneira.
Eu, meio desconcerta, disse a ele que devia ter visto aquilo na televisão e, lógico, fui repreendida por deixá-la acordada até tarde. Isso era péssimo para a educação das crianças. Engoli a seco, olhando-a com aquele característico balançar de cabeça, tipo: você me paga!

Ao chegar no apartamento do pai, ela ligou a televisão e ficou feliz ao reconhecer os seus amiguinhos de desenho animado, mas...mãe, por que não falam certo? Parecem birutas! Expliquei que em Boston, falava-se o inglês. Mas que droga, retrucou colocando as duas mãozinhas na cintura: mas por que? Tentei, agora à minha maneira, contar a história da Torre de Babel, e o resultado foi: como os homens antigos eram burros, não mãe? Seria mais fácil uma língua só, mas então, porque não trouxe a televisão do meu quarto, ela fala português! Apenas ri, claro, teria que explicar muitas outras coisas do mundo da cibernética, isso já era para um Phd em ondas magnéticas e com psicologia infantil!
Dois dias depois, estávamos no "playground" do prédio, quando me distrai cuidando do meu filho menor e, depois de alguns minutos senti a falta dela. Fui até uns brinquedos que estavam espalhados pelo pequeno parque e qual não foi a minha surpresa ao surpreendê-la conversando muito brava com uma garotinha que estava com um cachorrinho no colo.
Aproximei-me espantada. Como estavam se entendendo? Ela, ao me ver, aproximou-se e disse: mãe, como essa menina é burra, parece os homens antigos lá daquela torre. Apontando o dedinho para o animal, disse séria: eu digo que é cachorro e ela diz que é um tal de dog. Que pena que no avião não deixam trazer cachorro para eu provar, né?

Definitivamente, acho que a minha história da tal Torre não a tinha convencido, mas ela não deixa de ter razão, como os antigos eram burros, ou achavam que nós do futuro seríamos. Quando não tinham explicação lógica para uma determinada coisa, pronto: lá vinham com aquelas historinhas de Adão e Eva, Arca de Noé, etc... Ou será que nós é que somos bisbilhoteiros demais e adoramos perder horas pesquisando qualquer assunto?
É...e com toda nossa sabedoria, acabamos perdendo a ingenuidade infantil que nos antigos parecia ser eterna!
QUINTO QUADRO
DIAS NEGROS

-Mamãe, a senhora tá dormindo?
-Não, filha, se pergunta é porque sabe que não.
-Se agora a gente tem dinheiro, por que comemos ovo novamente? Sabe, daqui a pouco todo mundo vai estar piando. Não consigo dormir de tanta vontade de comer a galinha também. Se bem, que...se a gente come a galinha fica até sem o ovo, mas...
-Ah, filha, fique quietinha que o sono vem. Lembra dos carneirinhos com a cerquinha branca? Pois conte vários.
-Nossa! Carne de carneiro deve ser uma delícia, né? Apesar de que eu morro de dó. Os meus parecem um monte de cachorrinhos branquinhos. Mas, mamãe, se a gente agora está rica, por que...
-Mas quem lhe disse que a gente agora está rica, filha!
-Ora, o papai não roubou um banco?
-Filha, pelo amor de Deus, o seu pai não roubou nada. Ele foi preso porque pensa diferente de outras pessoas, entendeu? Fique quieta, senão você vai para o seu quarto e com a luz apagada!
-É...cortaram até a luz! Não dá nem prá ler. Então todo mundo tem que pensar igualzinho?
-Não, claro que não, mas tem certas pessoas que acham que só o que elas pensam é que está certo e se alguém, como o papai, não acredita em suas verdades, quero dizer, no que elas dizem...
-Ai, ainda bem que a senhora não é da polícia.
-Por que, Edi?
-Tem um monte de coisas que eu penso diferente da senhora, mas sabe...não tenho vontade de voltar às aulas de catecismo. Penso tão diferente do Padre Pedro. Não acredito nem um pouco naquela história da Virgem Maria e...
-Filha, isso é pecado! Não me faltava mais nada, meu Deus, outro ateu na família!
-Ai, ainda bem que Deus também não é da polícia, né mãe, senão eu tava fodida.
-Fodi...o quê?!? Edi, onde aprendeu isso?
-Na escola, todo mundo fala. Está até escrito no banheiro das meninas.
-Ai meu Deus, isso é horrível, filha. Nunca mais nem pense nessa palavra. É pecado!
-Mas, se todo mundo fala é porque pode.
-Não, Edi, nem tudo o que se diz é porque pode ser dito.
-Não entendo isso. Por que? Então, todo mundo devia ter nascido mudo.
-Acabei de falar que seu pai foi preso porque disse certas coisas que não pode e não se esqueça que Deus lê até os pensamentos.
-Nossa, como Ele consegue? Bem, se Ele não é da polícia, não tem importância.
-Mas se seu pai ouvir você falando isso, vai lhe dar umas boas palmadas, viu?
-Sabe, mãe, a senhora parece até que tem medo de Deus. Ele não tem que ser bonzinho? Eu acredito em Jesus porque gosta de crianças e adoro a oração do Chiquinho!
-Que Chiquinho?
-O de Assis, ora.
-Você realmente me surpreende, onde já se viu tanta intimidade assim com um Santo? Isso é pecado, filha!
-Imagina, o Chiquinho adora animais, pensa que não sei? E por que não iria gostar de criança? Isso é outra coisa que eu não entendo: o meu pai foi preso porque pensa. Todo mundo não pensa? Eu penso prá chuchu. Então é proibido pensar?
-Claro que não, mas nem todo pensamento pode sair às claras. Muita coisa você tem que engolir. Estamos vivendo dias negros, querida. Quando for grande, você vai entender. Agora, reze para o seu Chiquinho e durma. Vamos esperar por dias com menos nuvens.
-Mamãe, o moço da rádio disse que não vai chover e eu já recolhi toda a roupa do varal, mas o que o papai pensa? Se estivesse aqui, ia perguntar prá ele.
-Ora, ele acha que todos são iguais e merecem melhores condições de trabalho; merecem terras para cultivar; merecem melhor educação; melhores hospitais, melhores...
-E isso é errado e tão feio assim?
-Edi, pelo amor de Deus, vá dormir que eu tenho um monte de roupas para costurar amanhã logo cedinho. Colabora, filha!
-Engraçado, mas eu também penso igual ao meu pai. Por que a Luciana tem tanta roupa bonita e eu não? Por que a senhora tem que costurar tanta roupa para a mãe dela e me faz vestidos com as sobras? E já que a senhora não é da polícia é bom que saiba que eu detesto aquele vestido que tem um monte de emendas. Detesto o meu sapato que não combina com nada, nem com o jornal do buraco. Detesto papel de pão ao invés de caderno, sabia?
-Oh, meu amor, não precisava botar fogo no coitado do vestido. A gente teria dado para outra criança. Você sabe que detesto desperdício.
-Desperdício do quê?!? Isso é que não. Por que acha que a outra criança iria gostar daquilo? O meu pai tem razão. Se todo mundo é gente, porque alguns parecem tão diferentes?
-Filha, você é muito pequena ainda para entender essas coisas, mas acontece que o mundo existe há bilhões de anos e agora fica difícil entender como foi feita a sua divisão. Assim, a sociedade foi se, ai meu Deus, como vou explicar...
-Se não souber, não precisa, mamãe. As pessoas grandes às vezes são tão complicadas!
-Bem, desde que o mundo é mundo, existe o miserável, o pobre, o mais ou menos e o rico, entendeu?
-Não. E acho que meu pai que não é nenhuma criança, também não entendeu até hoje, tanto é que foi preso. E se ele foi preso porque não quer entender isso, eu quero ser presa também. Você me leva na cadeia amanhã? Bem, a sua bênção, mamãe, não fique triste. Pelo menos o ovo de amanhã vai ficar só pra você.
-Boa noite, filha e que Deus te abençoe e guarde. Agora só me resta rezar, além de contar mil carneirinhos!