Reciclagem

Monday, April 25, 2005

O RIO NEGRO É O OLHAR DE UMA ÍNDIA
Havia um rio de ternura nos olhos oblíquos daquela menina. Olhou-me. Hipnotizou-me. Naveguei horas dentro daquela bacia hidrográfica de olhar. A pequena manauara me mostrou um bicho preguiça, rindo-se do meu citadino e tolo medo. Ela estava numa barquinha que mais parecia uma casca de banana, tão pequena era. Meu coração apertou de preocupação. Como pode? Tão pequena que as mãos mal conseguiam segurar os remos? E, involuntariamente, lembrei-me dos cuidados excessivos que sempre tive com os meus filhos pequeninos. Ah, quem me dera estivesse com uma bolsa enorme: trá-la-ia comigo para beber pra sempre de seu líquido olhar pluvial e fluvial. E olhei para o Rio Negro. Ele estava dentro do olhar daquela índia, como os animais daquela selva, como os milhares de espécimes da flora, como os milhares de outros brasileirinhos que vivem numa casa flutuante para fugirem da "cheia" do caudaloso Rio na época das chuvas. Cada cantinho daquela selva tinha uma história. Cada árvore com uma utilidade própria: seja medicinal, seja frutífera, seja apenas como uma que por ter as raízes largas e achatadas, os índios ao bater nelas se comunicam à distância. É o celular da selva palpitante. Meu Deus, que imenso orgulho de ter nascido nesse país que dorme eternamente nesse travesseiro verde que é a Amazônia! Está explicado o seu eterno sono! Quem possui um lugar assim tem mais é que dormir para sonhar sempre. E, de volta à cidade, olho ao redor de minha floresta de prédios e sinto saudades da minha indiazinha que poderia se chamar Manaus, que é a mãe dos rios, pois a minha indiazinha, definitivamente, marcou em mim a sua presença pela imensidão de rios que possui no seu oblíquo olhar. O olhar dessa menina se confunde com o próprio Rio Negro que banha tão generosamente a cidade de Manaus! Ela é o próprio Rio.

Sunday, April 24, 2005


A FESTA

Ainda que mil pedaços me faltem, ainda que mil cicatrizes me marquem, não me calarei.
Fiz uma viagem com as bagagens cheias de perspectivas de viver para ser feliz, e o serei.
Não fui convidada para a festa de inauguração do mundo, mas entrei como intrusa e festejei.
Estourei “champagne” francês nos ouvidos dos burgueses, estupefatos de tal feito e gargalhei.
Dancei ao som dos meus próprios acordes, em cima das mesas com porcos e maçãs e exultei.
Fui expulsa, escarnecida, espicaçada. Limpei a poeira dos ímpios, esbravejei, briguei.
Acabaram desistindo de mim, não podiam me tirar o chão. A força me move e fiquei.
Fiquei feito feto que teima em vingar por mais que a mãe dê socos na barriga. Não abortei.
Tentaram violar minha dignidade, pisar em minha individualidade, esbravejei.
Ignorei olhares, calei sussurros. Empinei o nariz, rebolei a bunda e altiva o salão atravessei.
Nasci de mim, cresci de teimosa, sobrevivi a crises, arrancaram dores sem anestesia e agüentei.
Cá estou com meus sonhos na valise, cuja única peça nova é a camisola que ainda não usei.
Esta será para a hora final da noite, quando a festa acabar e tonta de tanto dançar, descansarei.
Realizada. Feliz, por ter usado toda a minha bagagem de vinda e ter comido do bolo, ter tomado a bebida, ter dançado a ciranda dos sonhos, ter amado, ter festejado.
Pena que nem todos tenham feito parte da festa; uns por se acomodarem, outros por achar que a festa é só de alguns e outros que por temerem demais ao Anfitrião, não ousaram invadi-la.
Pai Nosso SE estais nos céus... Boa noite. Finalmente, conhecê-Lo-ei.
Edi Longo,
SBAT 030899

EXPRESSONHOS

A estação estava cheia de gente e coisas. Eu tinha que acomodar a todos e fui, democraticamente, colocando tudo e todos nos seus devidos lugares.

Cabine de navegação:
O maquinista sorridente era o Brasil, país bom que acolhe muita gente. Ao seu lado, um rádio destilava um sambinha bem ao seu estilo. Cheirei as notas do samba e senti o nácar da maresia de nossa costa fartamente marinha. Como é bom nascer aqui!

Finquei com orgulho a nossa raça e cor num mastro bem à frente e meu peito ficou pequeno para caber tanto amor pelo meu país que ondulava livre com os cabelos ao vento.

Eta garoto traquino que corre vadio pela planície da América do Sul! Pena que alguns não o levem a sério, como se fosse um eterno dorminhoco e o faz tão sofrido!

Fiquei nas pontas dos pés (ele é enorme!), dei um beijo cúmplice nele e fui providenciar a acomodação para os meus convidados.

Primeiro vagão:
Coloquei as bagagens nos lugares superiores e todas eram cheias de amor, amizade, carinho, bom humor, felicidade, ética e vida saudável. Como eram leves!

Nos lugares, coloquei: minha família; meus amigos; Chico Buarque que já chegou cantando Roda Viva com o MPB4 (tive até que pular o violão que atrapalhava, pô!)
E foram chegando os demais componentes de nossa música (Caetano, Gil, Gal, Zélia Duncan, Zizi Possi, Betânia, Beth Carvalho, Emílio Santiago, Djavan, Nei Matogrosso, Zé Ramalho; José Geraldo; Geraldo Azevedo; Zeca Baleiro; Tito Madi, os Caimys etc... ) ainda vivos, graças a Deus.

E lá vinham o Fagundes; o Raul Cortês; a Fernanda Montenegro; a Arlete Salles; a Suzana Vieira e o Rodrigo Santoro que viera fazer companhia à minha filha, claro! Meus grandes fazedores de emoções: todos os autores teatrais!

Fui espalhando, entre eles, para que não formassem rodinhas, os amigos estrangeiros, tipo: os beatles MacCartney e Ringo; Tina Turner; Mercedes Sosa; Elton John; Steve Wonder; Rod Stewart; Plabo Milanes, Bruce Springsteen; Al Pacino; Tom Hanks; Merryl Streep, Dustin Holfmann e o de Niro que confesso: não tirava os olhos de mim com aquele sinalzinho encantandor no rosto viril. Ai, Deus, que calor! Quando já ia fechar este vagão, chegou a Escola de Samba Rosas de Ouro e a Caprichosos de Pilares, que estava atrasada, pois o avião tinha tido problema. Mas como o que menos interessa são os problemas, todos se acomodaram felizes.

Fiquei orgulhosa porque, de repente, estavam todos falando a mesma língua ao som de um atabaque. Coisa boa essa coisa de brasileiro: tudo acaba em pizza, aconchego e muito samba!

Segundo vagão:
Com os olhos cheios de água, não precisei acomodar nada nos compartimentos superiores, pois os passageiros não tinham mais necessidade delas. Apenas coloquei uma caixinha cheia de preces para todos.
Nos lugares coloquei: alguns parentes e amigos; Vinícius e Adoniran que teimavam em ir para o vagão do restaurante (não podem ficar sem uma mesa de bar, nossa!); Elis; Nara Leão; Elizete Cardoso; Antonio Maria que mostrava para Dolores Duran a sua última composição, enquanto Maísa insistia que queria gravá-la; Clara Nunes; Cássia Eller; Noel Rosa que apesar de eu insistir, não queria ficar sem o chapéu (sem ele, com que chapéu eu vou?); Lupicínio com o eterno olhar de apaixonado com dor de corno. Os maravilhosos Gonzagas. Cazuza que se tivesse tido tempo e juízo, teria continuado a fazer coisas fantásticas. Nelson Cavaquinho e Cartola discutindo sobre o tempo do Rio antigo ao lado de Dona Zica e claro, que jamais poderia deixar de providenciar um piano para o nosso Maestro Maior Tom Jobim, apesar de eu ter que tirar vários bancos para que o mesmo coubesse, mas...ele tocava como nunca e brincava com o Pixinguinha sob a complacência das notas musicais! Jacob do Bandolim exultava de felicidade e dava suas dicas.

Misturei a eles: os beatles Lennon e Harrison; o insuperável Bob Marley; Nat King Cole; Frank Sinatra que adorou estar com o amigo brasileiro e Janis Joplin, depois de dar-lhe um sermão pela pisada na bola por morrer tão cedo e tão estupidamente. Ah, o Elvis estava lindo como no começo da carreira e que topete, Jesus!

Não deixei de gargalhar quando o Vinícius insistiu para passar para o vagão da frente com a desculpa de dar um beijo no Toquinho só pra ficar do lado de cá e ainda teve a cara de pau de me pedir um cachorrinho engarrafado (não tem problema, pode ser cow boy mesmo!) Esse branco continua negão dos bons! Tá provado que alma não tem cor.

Terceiro vagão:
O mais procurado por todos, exceto os do segundo vagão, lógico, apesar dos olhos compridos e gulosos. Esse era o Restaurante onde seria servido tudo o que todos mais gostam de comer, beber, sem quaisquer problemas na consciência imposto pelo programa do Fantástico de Domingo. Ave, quase tudo é proibido.

Nesse meu vagão-restaurante não: aqui é proibido proibir, como bem disse Caetano. E o meu maitre mostrava com gabardia pratos preparados por ele que me deu até água na boca e que faria qualquer cardiologista mandar-me à cadeira elétrica. Tudo nada light, tudo muito condimentado, tudo com muito sabor. E muita e variada casta de bebida havia na adega generosa. Não descuidei, nem por um minuto do gelo para a cervejinha prazenteira e muito menos da porta do pessoal do segundo vagão. Já pensaram que desfalque não iriam nos dar?

Quarto vagão:
Nos compartimentos destinados às bagagens, fui colocando malas cheias de cultura, sabedoria, bondade, inteligência, beleza.

Esse vagão eu reservei para os melhores lugares do mundo (Rio de Janeiro; Salvador; Roma; Veneza; New York; Paris; Florianópolis; minha São Paulo); para a dona Natureza e suas belezas; para o Sol; para a Lua; para os amantes que podiam se amar à vontade (aqui estavam Romeu e Julieta; Branca Dias e Augusto; Paris e Helena; Roxana e Alexandre; Adela e Pepe el Romano); para os escritores e poetas (Lorca, Neruda, Brecht; Fernando Pessoa; Drummond; Machado de Assis; Adélia Prado; Cecília Meirelles; Érico Veríssimo).
Nossa, ainda tenho que acomodar os homens honestos e de boa vontade; os religiosos; os éticos; os amorosos; os bondosos; alguns nomes como: Jesus de Nazaré; Francisco de Assis; Irmã Dulce; Madre Tereza de Calcutá; Che Guevara; Gandhi; o político Faria Lima que projetou para minha cidade adorada um futuro melhor; o audacioso Juscelino Kubitschek que desafogou o Rio de tantas coisas públicas.

Quinto e último vagão:
Ai, ai, ai... ufa!
Aqui eu precisei de vários carregadores, pois as bagagens estavam pesadas. Eram caixotes enormes cheios de tristeza, desavença, ódio, inveja, solidão, inimizade, rancor, doenças do corpo e da alma, enfim todos os tipos de deformidades físicas, morais e espirituais. Ah, tive que colocar os bancos que desocupei do vagão do Jobim neste, pois o mesmo estava lotado.

Nos lugares, amarrei fortemente: Hitler e seu bando de loucos da SS; Sadan Hussein e seus asseclas; o Bin Laden com sua demoníaca inteligência; todos os ditadores e suas atitudes de deuses como os Bushs; os Getúlios; a maioria dos políticos de nossa ditadura; os Calígulas; os Átilas, vários Césares romanos; os homens deformados pela sociedade (terroristas; assaltantes, estupradores, atravessadores, puxadores de tapetes e de sacos; ladrões do dinheiro público, etc...); os mercadores de drogas e de órgãos humanos; os torturadores; os mentirosos; os falsos sacerdotes que usam o nome de Deus em vão...enfim, tudo o que é feio e mau. Tudo o que é preto e branco e que é imune à fantástica visão das cores do arco-íris num dia de chuva de verão. Instintivamente, rezei até um “Pai Nosso” e como boa brasileira fiz o “sinal da Cruz”! Sai de retro, Satanás!
Aprisionei num saco à parte o cheiro do ranço, do velho, do podre. O cheiro do mau agouro e da má fé.

Fiz um discurso enorme só para encher o saco de todos e exigi que pedissem perdão à humanidade, enquanto gargalhando, descarrilei o vagão, observando-o cair lentamente pelo precipício abaixo, indo se espatifar e afundar no mar revolto que me deu uma piscadela marota, bradando tal qual Poseidon: bem feito!

Acarinhei e guardei na memória os "vivos-mortos" e voltei para o primeiro vagão onde depositei no coração de cada um, um pacote de agradecimentos pelo tanto que me dão e que ainda irão dar e todos cantamos juntos uma canção para a vida ao som da bateria de ambas as Escolas de Samba presentes.

Faça também essa viagem com os seus preferidos e indesejáveis. Só não esqueça de descarrilar o último vagão!

Dá um alívio na gente...

Friday, April 22, 2005

FAÇO ARTE

Faço arte como o animal
Que vai para o matadouro
Certo do momento fatal
Sem soltar grito ou choro

Faço arte como se parisse
Um filho a cada segundo
Ainda se muita dor sentisse
Eu povoaria o mundo

Faço arte como o louco
Que vive o mundo do sonho
Da realidade faz pouco
No seu gargalhar tristonho

Faço arte como a vida
Faço arte como a morte
Ambas em eterna briga
Construindo a nossa sorte

Faço arte com o tesão
Que sinto dentro da carne
Pois a arte sem paixão
É pimenta que não arde

Faço arte como um filho
Que cresce e vai embora
Deixando a casa sem o brilho
Das travessuras de outrora

Faço arte como o velho
Cujo passado é o presente
Cada marca no espelho
Lembra um futuro ausente

Faço arte como o cara
Que nunca se desespera
Cheio de garra e de tara
Não fica em sala de espera

Entro pela porta da frente
Enfrento qualquer tropeço
Mesmo que eu me arrebente
Só pela arte padeço!

E como o manso animal
Que se entrega ao flagelo
Minha arte é o sisal

Com que teço o feio e o belo!

Friday, April 15, 2005

Mandei pra ele na ocasião, será que entendeu?


Carta a um brasileiro

São Paulo, 27 de Outubro de 2002.

Oi, Companheiro!
Sabe, o meu alimento principal é a sabedoria ingênua de meu povo e acho você, leitor sensível, um perfeito representante desse povo, que ainda se cumprimenta, que ainda se dá bom dia e um afago íntimo de amizade sem precisar de abraços. Confesso que não votei no Companheiro Lula, mas torço pra caramba pra que ele acenda no rosto de nosso povo um sorriso (com todos os dentes) de esperança! Que realmente ele consiga para esse grande povo as três refeições diárias; consiga uma escola decente sem as necessárias vinte e quatro horas na fila para a matrícula; consiga desenfileirar as dores nos corredores dos Hospitais Públicos; consiga que nossos lixos não sejam vasculhados por mendigos; que nossos irmãos nordestinos possam ver nascer do chão o broto de seu esforço inútil; nossos cruzamentos sejam usados apenas para nos cumprimentarmos à moda antiga, sem medo dos inevitáveis assaltos; consiga que possamos dormir tranqüilos e sem sobressaltos diante de um telefonema de madrugada, quando nossos adolescentes estão gastando suas energias; que esses mesmos adolescentes sejam livres da sagacidade dos traficantes e se, vítimas, tenham tratamento decente; consiga que nosso Operário tenha o fim do mês compensado pelo justo pagamento de seu suor e a sua casa própria e que, principalmente...quando nos quedarmos cansados de tanto trabalho pela vida, sejamos respeitados em nossas aposentadorias, tornando-nos, como a exemplo dos velhos de outros países, turistas em terras desconhecidas e não carregadores de placas duplas como roupas de palhaços numa praça de uma cidade qualquer, para ajudarmos a renda familiar! Sonhos? Devaneios? Que importa! Se tudo isso acontecer, com certeza, ele, ou qualquer um, tornar-se-á para mim o Robin Hood que tanto enfeitou meus sonhos de criança! Um beijo verde e amarelo que um dia tornar-se-á branco de paz e se azulará de alegria diante desse País tão sonhado, tão querido e tão amado!
Da cidadã,
Edi Longo.

P.S: que nossas favelas sejam substituídas por casas mais confortáveis; não sirvam de pano-de-fundo para os telejornais e que não sejam visitadas por políticos apenas em época de eleição.


MÃE TERRA

Há que se ter colhões para entender o mundo
Há que se ter fundilhos resistentes
Há que se ter paciência para ouvir os gritos
Há que se ter coragem para enfrentar a turba
Os homens estão fedendo cólera
Os homens viraram cobras
Rastejando, enfiando os dedos nos lixos
Pútridos. A humanidade clama por compaixão.
De quem?
Deus anda fazendo ouvidos moucos aos seus lamentos
Ele tem mais o que fazer
Do que recolher carcaças podres
Com urubus batendo asas em revoada
(Nem eles querem comer esses restos falidos)
Inventamos tanto
Criamos tanto
Somos o máximo!
E acabamos seja no fogo dos infernos
Seja no útero cheio de vermes da Mãe Terra
O que apenas somos
Nada


De onde viemos e para onde vamos voltar
Valeu a viagem de vinda?
Valeu a triagem sofrida?
Valeu ser escolhido ou escolhida?
Valeu o cifrão conquistado?
Valeu o tesouro guardado?
Valeu não olhar prô vizinho?
Valeu recolher a mão pra quem a estende?
Valeu amar de qualquer jeito?
Valeu o vômito ante o asco?
Valeu dar-se sem berros ao carrasco?
Valeu ferir o outro sem se ferir?
Valeu rezar tanto e só pedir?
Sempre pedir. Sempre.
Somos eternos pedintes
Eternos mendigos
Eternos carentes
Homens sem abono
Num total abandono
Precisamos implorar agora para que a Mãe Terra
possa nos aleitar em nossa viagem de volta
e vele sem lágrimas nosso último sono.

Edi Longo, gente só.
SBAT 030899
A CIBERNÉTICA DO POETA

O homem foi à Lua e de lá brincou de bola, tirando a Terra dos eixos.

Deixaram-na desorientada. Começaram a aparecer as alterações das camadas de ozônio, buracos negros na mente daqueles que usam e abusam dela.

E muitos valores foram trocados como roupas velhas jogadas no lixo. Filhos vagam da casa da mãe para a do pai. Pais pulam de tios e tias como se brincassem de corda. Vamos transformando a cidadania em segunda classe. Criamos cabeças confusas e braços armados.

Economicamente, hoje é mais rentável ter pernas do que braços, hajam vistas as fortunas fantásticas que as pernas fazem correndo atrás de uma bola.

Hoje o intelectual, o Phd em alguma coisa, torna-se Phd de coisa nenhuma. As cabeças continuam; seja rico ou seja pobre, seja inteligente ou medíocre, estas sim: continuam necessárias, embora mal empregadas. Umas criam, outras destroem, outras continuam inertes bolas de pensar e mascar idéias, apenas.

A Terra, mulher tenra e carinhosa, foi violentada por bárbaros gênios que foram inventando máquinas cada vez mais poderosas. E o homem foi ficando cada vez menor, cada vez menos necessário. A inteligência trabalha mais do que mil braços.
O que farão os homens que só têm braços? Virarão peças de museu como a Vênus de Milo? Com pior papel: com braços inúteis. Não se precisa mais de mãos para apertar botões, os robôs o fazem com maior precisão. Não se precisa mais de cobradores de ônibus, os cartões os substituíram. Não se precisa mais viajar de avião; da sala de seu escritório o executivo vai à uma reunião em qualquer lugar do planeta, através da tela. Não se precisa mais de secretárias, elas o são através dos telefones. Não se precisa mais nem de tanto alimento, os suplementos nutricionais o substituem.

A Terra não será mais banhada, nem alimentada com grãos, não verá sair de suas entranhas, os cabelos louros da espiga de milho, os grãos vermelhos do pé de café. Nunca mais ficará grávida! Até as mulheres não serão mais! Namoros e amor se faz através das máquinas. Bebês não precisam mais de cópulas, só de provetas. São feitos em laboratórios e logo mais estarão à venda em gôndolas de supermercados. Já antecipo a placa: entrega-se em domicílio. É só conectar a Internet. Vidas que vêm através do espaço já etiquetadas e com o código de barra ...pip...pip...pip...ao invés da pulseirinha do quarto da Maternidade.

E a Terra, mãe de todos, sempre prestimosa, vai ficando relegada, cada vez mais se transformando numa pequena partícula de átomo perdida no espaço. Como toda mulher, quando preterida; vinga-se mandando chuvas onde não há necessidade, provocando enchentes ou seca sem nada deixar crescer de seu útero e vai levando consigo um mundo de gente, a maioria desnecessária, pois só têm braços.

Quando muito furiosa; caprichos de mulher; muda repentinamente de temperatura e, onde antes fazia calor hoje faz frio, congelando ainda mais os corações frios; onde fazia frio o calor esquenta mais do que os caldeirões dos bruxos que a violentaram, esquentando ainda mais o sangue quente que provoca atentados, guerras, terrorismo onde mais uma vez quem vão sendo dizimadas são as pobres cabeças só com braços.

Quando está naqueles dias, jorra lavas de menstruação e treme, acordando os vulcões e se partindo para engolir com seus tremores alguns dos seus vis violadores. Mas as cabeças sem braços, têm túneis confortáveis que os protegem e novamente os só com braços é que entram pelas rachaduras que provoca.

E cada vez mais ela se apequena e, percebendo que perdeu a utilidade, sente-se como uma reles prostituta que é estuprada por milhares ao mesmo tempo através da tela de um computador, numa total displicência diante de seu pudor de mulher.

E chora gotas de sangue tentando nos alertar, mas o homem está cada vez mais comprometido com a cibernética e pisa nela sem nela pensar.

Ainda bem que existem os poetas que tentam resgatar com seus desvarios loucos, a sua honra e faz da cibernética apenas um instrumento de escrever poemas...apenas...poemas...

Como esse desabafo que faço.

Edi Longo,
SBAT 030899

A tal ser ou não ser...que questão!

Já imaginaram as palavras abaixo na boca de um mendigo? Aquele que não é nem rico, nem classe média e muito menos pobre: é um miserável! Ele encontrou o poema abaixo no lixo de um poeta. Ah, o mendigo é um personagem de uma peça teatral escrita por mim há alguns anos. É assim:

PARADOXO

Estranho comportamento o do Zé!
...................................................................................................................................................
Trabalha...
Vejam bem, trabalha.
E recebe em dia.
Tem atendimento grátis pra toda família pelo INANPS e pelo SUS!
Diz que por isso pagou e pra isso fez jus, agradecendo e fazendo
sempre o sinal da Cruz. Ai Jesus!
Tem filhos, como investimento, que ajudam ainda rebentos, no orçamento.
Que suprimento!
Mulher elegantemente magra, dizem que é carência
Se rica fosse, seria inapetência.
Que incoerência!
Mas, afora a divergência, a dona é tísica, mas como vende limão na
feira! E ainda é mística, faz bico como macumbeira!
Enfim, a renda da família é sofrida, concordo, mas bem tecida.
...................................................................................................................................................
Gente, o Zé tem peito e levantou seu recanto num canto da Prefeitura.
Que usura!
Puxou gato, iluminou a vida e o barraco
Diverte-se ruidosamente com o ardor futebolístico
e que gosto artístico!
Ah, fim-de-semana, se sacode no pagode, pode?
Come por mixaria no bandejão da Empresa
Que fineza!
Não paga nem imposto na fonte, o mastodonte.
Da mídia especializada, é assunto preferido!
Pra sociólogo é ente muito querido,
O metido!
E apesar de todo esse aparato
o safado ainda vive atazanado.

Pior sou eu...que...

Tenho a vida acionada e violentada por números!
Sou um energúmeno!
E as taxas? São tantas, que nem tem graça!
IR; IPC; IPVA; IPTU; IPMF e todos os outros “Is” que nos são impostos,
Posto que todo imposto começa com I e todo imposto nos é imposto,
Isto posto, muito a contragosto, reconheço: sou rei posto.
Que desgosto!
...................................................................................................................................................
Tenho casa regular, com mulher gorda que gasta em regimes e plástica.
E, quando nas raras vezes a procuro, cumprimento de tabela, haja cinta e meia elástica!
Que ginástica! E que lástima!
Tenho casa irregular, com uma atleta sexual, prá melhorar o astral e levantar o moral.
E que mantenho como cacho, isso eu acho
Pra manter o meu status e minha fama de macho.
Pois é, caros amigos, senão dos amigos, vem aquele esculacho!
...................................................................................................................................................
Ai meu Deus, lembram dos filhos do Zé?
Pois é.
Ajudam no orçamento.
Os meus?
Estudam em colégios caros... e hobbies que não deixam por menos.
É um tormento, mas não lamento, finjo que agüento.
Pois é.
O Zé se preocupa com a pindura do boteco.
Pequeno desacerto. Isso é certo!
Mas sempre consegue alguma propina, é gente fina.
Eu, decerto, achando-me mais esperto, preocupo-me com a Bolsa de New York, a Dow Jones, e tramitações industriais...
e muito mais...
...................................................................................................................................................
Insatisfações políticas, boca-lacrada, sobremedos, medos-sobre e a alta da gasolina, que joga os preços prá cima!
Que sina!
Durmo com o corpo no leito macio, mas com a mente no computador da fábrica.
Que sátira!
Não ouço o bater do ponto, mas ouço o bater das horas, que me rouba o sono e implora: ora, Mané, cai fora!
Não conto os contos de réis, mas conto o conto do vigário e só conto com otários.
E com a conta monetária.
Que conto, heim, Zé?
...................................................................................................................................................
E então, tu ainda quer mudar de vida?

Edi Longo,
SBAT 030899


Thursday, April 14, 2005

Teatro, outra grande paixão!

TEATRALIZANDO A VIDA

ATO I
NASCENDO...
Furei com o dedão do pé
aquela bola cheia d’água
era bom e quentinho
flutuava
como o homem na lua
queria ver o rosto
daquela voz
que me falava
curiosa
ansiosa
adorei aquele olhar
com lágrima
caiu uma em minha cara
de joelho
marcando meu corpo
lavando minh’alma
com zelo
com calma.

ATO II
CRESCENDO...
Brincando de faz de conta
imaginando o casamento
da Borralheira
da Branca de Neve
sempre com um príncipe
fazendo o casamento
das palavras
vendo nascer um monte
de palavrinhas
quando engravidavam
B+A dá ba
se casar com mais uma igual
dá baba, que é o bebê da
consoante com o casamento
da vogal multiplicado
que é junção do b+e...
babando-me toda
diante dos múltiplos bebês-palavras
que ia inventando
sentia-me uma parteira e tanto!

ATO III
ADOLESCENDO...
Quando me senti
botando seio
entrei na vida
andando ao meio
meio com receio
me deu um dó
queria ficar prá sempre
perdida
na partida de futebol
nos quadrados da amarelinha
nos penteados das bonecas
cautela e caldo de galinha faz bem
disse minha avó
com pena
Que pena!
já morreu
sem tempo de me ensinar
como enganar
o medo do outro
não só o meu.

ATO IV
ADULTECENDO...
O jogo mudou
agora não é à brinca
é a dinheiro
reis sem trinca
príncipes sem cavalo
sonho alado
meio de lado
beijos que matam
não ressuscitam
uns excitam
outros traem
a vida é enviesada
às vezes escada
às vezes ziguezague
que corremos
das muitas pedradas
altos e baixos
retos e tortos
bons e ruins
dúvidas
dívidas
vívidas vidas
vividas por mim

ATO V
AMADURECENDO...
Batendo o coco
prá ver se sai água boa
maturando o pensamento
olhando pouco
pensando muito
falando menos ainda
o receio
já não é do seio
que já não aponta
murchou, caiu
(maldita lei da gravidade!)
mas apronta
certas ciladas
lá dentro dele
não mora o medo
mas a saudade.

ATO VI
ENVELHECENDO...
Reaprendendo
com os novos
rememorando
os prós
reavaliando
os contra
repensando
o passado
remendando
o presente
reimaginando
o futuro...
(dos outros)
repulando
o muro...
prá descansar
não prá roubar
fruta no quintal
da vizinha
morrendo sozinha
sobre a murcha pele
sem pena
cai o pano mortal
fechando a cena
do ato final.

A vida aplaude solitária da platéia.


Edi Longo,
SBAT 030899
CURRICULUM VITAE

Nome:
Meu pai queria Vilma, minha mãe o fez esperá-la para irem ao Cartório. Virei Edileuza, mas sou Edi. Só duas vogais singelas ladeando a consoante que pode significar: dúvidas, deuses, divindades, mas para mim, significa: dignidade. E o sou. Não aceito qualquer dúvida a respeito disso. O sobrenome é nordestinamente nacional, como a pinga do alambique ou o seco das caatingas: Bezerra de Lima.
As leis civis, tornaram-me Longo, apesar de baixinha. E hoje sou Edi Longo, adotado e patenteado no Cartório de minha própria escolha. Acho que os pais deviam deixar os filhos crescerem para se autodenominarem, assim como para optarem pelo direito ao próprio credo.

Local de Nascimento:
Está lá no mapa. Monteiro, Paraíba. Uma pequena menina perdida no sertão, rodeada de cactos, caatinga e animais esqueléticos, mas tá no mapa.
Fui conhecê-la há apenas dois anos e a amei de imediato. Senti pena por não poder trazê-la comigo. Achei-a tão pequena e desprotegida! Na cidade menina eu nasci. São Paulo foi a senhora madura que escolhi para crescer, educar-me, casar-me e criar os filhos, que me perdoe a modéstia, mas criei dois saudáveis cidadãos.

Idade:
Cinqüenta e dois anos, bem vividos, curtidos na adolescência num tonel de cuba libre, muita conversa jogada fora, muita Poesia, muita MPB e muita farra. Sempre fui notívaga. Gosto de ver o sol brincando de aquecedor. Depois, sair pelas ruas, comendo o pão dos vizinhos deixados pelo padeiro da esquina. Pra variar, seu Manoel. Curar a ressaca com o leite da garrafa. Tempo bom! Adulta, segurando a vida a tapa, brigando pelo direito de ter direitos. Também foi bom, pois que sobrevivi. Tive amores, alguns inconvenientes, outros excitantes, mas amei.

Escolaridade:
O Ensino Médio fiz em diversos lugares, visto o meu pai ser um trabalhador fanático em hidrelétricas. Queria parir o mundo, com muita luz. Nordestino precocemente tirado de suas raízes como tantos outros.
A faculdade foi a USP, já na Cidade Universitária. Minha turma foi uma das primeiras de Lingüística. Ah, se aquela Colméia dissesse o que nós dizíamos e que não podíamos dizer nas nossas reuniões proibidas pela Ditadura. Quantas leituras escondidas, quantas poesias tínhamos que jogar fora correndo de algum dedo-duro. Naquela época não tinha como “salvar” ou gravar em disquetes. Muita coisa boa foi jogada fora, inclusive as nossas crenças na igualdade de direitos, na igualdade entre os povos, na liberdade. Valeu.
Tornamo-nos cidadãos. Aprendemos, a duras penas, a guerrear pela vida.
Experiências profissionais:
Para sobreviver só não matei, não roubei, nem me prostitui. Se bem que, às vezes, recebia cada salário chifrim que me sentia a perfeita prostituta. Usada por ser mulher para fazer trabalho de homem e receber menos.
Cheguei ao cargo de Encarregada Geral de Departamento Pessoal de uma grande empresa Alemã, sendo responsável direta por quatrocentos homens e mulheres e quando descobri quanto o meu antecessor ganhava, quase enfartei: era o dobro. Mas eu precisava do trabalho e engoli, não antes de protestar e ficar visada pela Diretoria. Claro que esquentei a cadeira por pouco tempo. Fui considerada “persona non grata” rapidinho.
Desisti de seguir a carreira Catedrática. Tinha compromissos sérios e o salário não era nada sério. Fiz bicos para complementar rendas desde que nasci, acho. Costumo pensar que a minha primeira dívida eu fiz com a parteira. O primeiro emprego foi de “Office girl” de um escritório de Advocacia com apenas doze anos de idade! Ainda hoje São Paulo é o maior mercado informal do mundo! Hoje existem leis que protegem os menores, mas eles ainda complementam rendas.

Objetivos e pretensões salariais:
Na atual conjuntura? Só trabalhar e já é demais. Ser uma cidadã empregada no momento é a maior loteria que uma brasileira pode querer.
Ainda mais com a idade onde todos acham que já estamos prontas para vestir roupas de palhaços e brincar de existir.
Sabem, além de minhas qualificações provindas da educação, a vida me habilitou em: lavar, passar, cozinhar, faxinar, dirigir, etc... e o mais importante é o etc...que significa que qualquer outra coisa será bem vinda, haja vista a experiência natural que a própria vida me deu. No presente caso, quero apenas divulgar a minha verdadeira paixão: o amor pelas palavras. Gosto de brincar com elas. E elas saem como poesias, contos, crônicas, peças teatrais.
Faço qualquer coisa, mas, por favor, não me peçam para abdicar do meu direito de brigar por elas, sem me incomodar com os padrões e as convenções gramaticais, assim que julgar necessário. Não me peçam para não emitir meus pareceres quando julgar que devam ser dados, não me peçam, jamais, para não abusar do direito que tenho de trabalhar, de viver, de me integrar à sociedade.
E ser livre, mesmo que isso aconteça ao raiar de um outro sol, sei lá, talvez sob as cores de um arco-íris. Dizem que existe um paraíso... mas mesmo lá lutarei por esse direito! Ser livre como um pássaro...como os sonhos e a imaginação! Deus me guarde e... aguarde!!!

Contatos e referências:
Amigos, poucos, bem selecionados, mas são daqueles que o olhar fala e a boca se cala. Não sei fazer marketing pessoal, por isso meus escritos estavam guardados em várias gavetas, amarelados e corroídos por traças.
Hoje, se você os estiver lendo, criei coragem e os poucos que encontrei, resolvi juntar e mostrar. Espero não ter ferido a sua sensibilidade nem ter sido demasiado supérflua. Se houver interesse, pergunte por uma sonhadora e a vida me identificará. Eu sou só isso.

Edi Longo,
SBAT 030899

COMPULSÃO

Desde menina
Não entro em sala de jogo, senão...
O vício domina.

Desde menina
Nunca usei droga insocial, senão...
A coisa fascina.

Desde menina
Não entro em nenhuma briga, senão...
Não saio de cima.

Desde menina
Não entro em parlamento, senão...
Aponto a propina.

Desde menina
Não falo mal de ninguém, senão...
A língua assassina.

Desde menina
Procuro não sentir dor, senão...
Nem Shakespeare assina.

Desde menina:
Trovejo ao invés de falar
Levanto antes de cair
Transgrido o que é real
Em poesia traquina
Que sai vadia e anormal
Até mesmo sem sentir.
Minha compulsão particular
(a droga que me alucina!)
é beber, jogar, cheirar,
cada palavra que anima
minh’alma tão pequenina
e
tudo de ruim elimina!
Sou assim...
Desde menina.

Edi Longo
SBAT 030899

Wednesday, April 13, 2005

OLHO ATENTO

O Tempo mandou um recado ao Infinito
escondeu-o do Vento para que não o espalhasse
mas no caminho havia uma onda
que o captou e transmitiu para todos os lugares do Planeta
o Tempo revoltado por ver seu íntimo devassado
engoliu tanto o Vento que ria de seu pudor
que ao perder o fôlego
a sua fúria se soltou
em forma de ciclone
uma tempestade
tsunâmica
varreu o Universo
e perdeu-se todo o prazer
da intimidade.
Estava criada
a devassável
Internet
ninguém mais tem segredos
temos um olho
sempre atento nos observando
e absorvendo
nos observando...
nos absorven...
nos obser...
nos ab...
nos...
...Nós:
atados com nós.

Edi Longo
SBAT 030877

Por que um blog?

Não apenas por vaidade, em absoluto. Porque gosto de escrever e me saber, de alguma forma, em comunhão com os amigos que também gostam. É uma forma a mais de me fazer ouvir nesse mundo de surdos. As únicas coisas que ouvimos são as catastróficas notícias de nossos telejornais. Nos jornais, a mesma coisa. Mas, dir-me-ão os mais afoitos: ora, não ouça telejornal, não compre jornal, não...não viva? Até distraidamente ao passarmos por um banca de jornal, as horripilantes notícias estão nos agredindo, fora isso, só bunda de dondocas. Diariamente, só há miséria, desgraça, tornando nossa rotina cada vez mais árida, mais rude, mais seca. Por que não se noticia só coisas boas? Será que na dialética do bem e do mal, o bem foi apagado? Desculpem, foi só um desabafo. Não quero também me tornar uma onda tsunâmica que envolva seu ego já tão lotado de indigências. Bem vindos!

Catarse

Ainda se fazia dia, quando o telefone tocou. Bernardo atendeu de má vontade, pois estava no meio de um amontoado de papéis, incluindo uma proposta que não conseguia terminar.
***
Alô? Vilma, pelo amor de Deus, estou no meio de uma...me liga daqui há pouco, por favor. Não posso interromper...
***
Nunca mandei você para a puta que o pariu, mas se desligar esse telefone ou não interromper o que está fazendo, hoje você vai com todas as honras, entendeu? E apenas me escute. Se disser uma sílaba, desligo esse telefone e vou até aí. Isso, quieto! Pelo menos uma vez na porra da sua vida, escute-me. Isso é uma despedida e é pra sempre. Ida sem volta.
Cansei de tudo: cansei de você sempre me olhando por cima do jornal, nunca nos olhos, como se eu fosse um móvel apenas na sala. Cansei dos nossos filhos sempre me sugando; como seu eu fosse obrigada; depois de tanto trabalhar para ajudar você a sustentá-los, ainda estar com disposição para ajudar nas lições de casa, sem dar a mínima para o fato de já estar defasada dos tempos colegiais e ainda me cobrarem: não é assim, mãe, você não sabe de nada! Depois crescem, vivem as próprias vidas e nos esquecem pelos cantos, ou quando não, jogam-nos em asilos, que para acalmarem o remorso, costumam chamar de “Clínicas de Repouso”.
Chega. Cansei de ser a administradora do lar que você acha sempre que está tudo fora de lugar, mas joga suas coisas quando chega em qualquer lugar, como se fosse um lugar qualquer e não o lugar que o recolhe e protege. Cansei de ser a motorista que você sempre acha que vai bater na próxima curva, mas que vai buscá-lo nos aeroportos. Cansei de ser a enfermeira que você sempre acha que está dando o remédio errado e que a hora não é exatamente aquela: imagine, faltam cinco segundos! Cansei de ser a sua muleta, quando algum problema emocional o ataca, ampara-se muito à vontade; mas quando preciso de ouvidos: os seus, ora não são penicos!
Quando uma pequenina gripe o surpreende, joga-se na cama, mete-se num pijama e pede para ligar ao escritório, inventando mil desculpas; enquanto as minhas cólicas: ora, são dores de mulher, você anda muito preguiçosa, Vilma, vamos, vá trabalhar! E quando eu estava parindo os seus filhos, você mal me olhava e ia lamber as suas crias. Até enquanto não chorassem, claro!
E como reclamava da quarentena: nossa, vamos ficar todo esse tempo sem... como se fosse um garanhão! Imagine, então, se eu iria me atrever a ter a tal da depressão pós-parto? Eu, heim! Imagine se eu ousaria reclamar dos peitos rachados e doloridos ou dos pontos vaginais? Tinha que levantar no meio da madrugada, arrastando-me até o berço e chorando junto com o bebê. Mesmo se eu o chamasse não adiantaria, o seu ronco encobria o nosso choro. Aquilo era frescura, coisa de mulher moderna, como me disse várias vezes.
No tempo de minha mãe; as mulheres pariam em casa e eram de aço; um dia depois já estavam no tanque lavando a própria roupa, sem precisar de vizinhos e nós temos que agüentar a porra da sua mãe por uma semana?
Ah, cuidado, Vilma, senão vai ficar fora de forma. Faça ginástica urgente para voltar ao corpo antigo, sim? Como se o meu corpo fosse propriedade sua, legalizada naquele papel passado daquele maldito Cartório. Cansei de esperar a sua aprovação, depois de horas no cabeleireiro e, depois seguir o seu olhar de admiração para outra, aliás, cansei de comprar uma linda roupa e você nem perceber.
Cansei de ser a dondoca e estar sempre linda nas reuniões enfadonhas com aqueles filhos das putas dos seus amiguinhos do escritório; quando na verdade, adoraria estar assistindo um lindo filme com um velho pijama de florzinhas, na companhia apenas de uma cervejinha gelada e um sacão de pipocas. Talvez, namorássemos um pouco, como nos velhos tempos, quem sabe. Dar uma transada no quarto da empregada, sei lá, uma aventura besta, mas uma quebrada da rotina.
Ao invés do lindo filme até um filminho de sacanagem para esquentar o ambiente. Mas não, você é convencional. Depois da famosa promessa no altar, adeus motéis, quando não saíamos deles quando solteiros! Hipócrita!
Cansei de sua mãe sempre me corrigindo e se considerando a melhor cozinheira do mundo. Aliás, dê-lhe um recado: adoro ter uma cozinheira particular. Por isso, fiz questão de nunca aprender a fazer aqueles bolinhos ridículos de bacalhau que você tanto gosta, seu trouxa. E quer saber? Aquela comida maravilhosa que eu levava para a praia, era tudo encomendado. Idiota! E como todo idiota que não gosta de comida congelada, você se lambuzava todo, e algumas vezes, chegava até a me elogiar para os panacas que iam se empanturrar e deixavam aquele montão de louças sujas. Se queria uma cozinheira, por que não se casou com a sua mãe?
Quer saber de outra? Lembra aquela conta do eletricista que você achou enorme? Pois fui em quem consertou, porque você morre de medo de não ligar os fiozinhos nos lugares certos e levar um choque, para depois levá-lo diante da conta. Ah, o armário da Nina também não foi o marceneiro quem consertou, não, fui eusinha, sacou? Adorava cobrar só pra te sacanear, já fazia tanto serviço de graça, pô! E depois ia feliz da vida comprar qualquer coisa, nem que fosse um alfinete, mas que agradasse a mim, só a mim. Só consegue fazer a mesma coisa, sempre. Nem curiosidade tem diante de algo que não conhece.
Quer saber de mais uma? Nas minhas rodas de amigas, um dia me perguntaram se eu tinha um cachorro. Como?!? Todo mundo tem que ter, ainda mais quem tem criança, apesar do trabalho. Pois eu disse que tinha sim e que não dava o mínimo trabalho: um bravíssimo São Bernardo que além de defender a casa; protegia e brincava com as crianças; ia sozinho ao banheiro, saía todo dia de manhã para trabalhar e ainda trazia um salário no fim do mês, gostou?
Não, não estou de fogo. Quieto, apenas escute. O quê que eu tenho?
Ora, vontade de vomitar o osso da galinha choca que acha que eu sou e que está encalacrado na minha garganta, seu pulha. Ah, está ocupado? Coitadinho! Louca eu? Se desligar, vou dizer tudo isso aí no seu escritório, mais que pessoalmente, estou avisando!!! E, aproveito pra contar pra todo mundo que esse tarado que senta perto de você e que você chama, amavelmente, de Chefe me deu a maior cantada.
Cansei de ver seu pai sempre me espreitando da janela para checar o horário que eu chego do trabalho, com aquela cara de cachorro chinês, em cima de um pilar. Nossa, Vilma, o ônibus das crianças já chegou há um tempão! Será que ele pensa que sou uma daquelas personagens do “Jornada nas Estrelas” que se materializa em outro lugar e que ele tanto adora? Que merda é essa?
Tenho a vida fiscalizada; analisada, espezinhada e além de tudo: chegar; providenciar o jantar; pontualmente, para que, na hora que você chegar (depois de sua ginástica, claro!), olhar com a cara de pouco caso e dizer: só isso? E gostaria de saber qual a força cósmica que o impede sempre de tampar a privada; fechar as gavetas e armários; não guardar os jornais lidos; não respingar pasta de dentes no espelho e deixar as toalhas molhadas sempre em cima da cama!
Aliás, cansei de você nunca respeitar os meus compromissos e achar que só quem os tem é você e, claro, tenho que os cumprir juntos, apenas para mostrar que somos o casal perfeito. Cansei desse lado da máscara de teatro: só a que ri, a que chora nunca.
Cansei de não ser respeitada nas minhas vontades. Quantas trepadas eu não simulei orgasmo, e você se achando o máximo. Nossa, sou bom pra cacete! Dorme nesse barulho, meu filho, por isso é que a Liz não aceitou a sua cantada, seu cretino. Ela sabia a merda que você é na cama, pois disse isso alto e bom som pra todas as minhas amigas. A velha história de “a propaganda é a alma do negócio”, manja? Só me faltava ser chamada de cornuda!
Aliás, acho que eu deveria apelar para a Lei do Consumidor por ter sido enganada e ter comprado gato por lebre. Ao invés de uma bela Brastemp, você não passa de um tanquinho meia boca. Sinto-me a tampa de uma panela torta que nunca se encaixa ou o pé com joanete que não se conforma nem num sapato usado.

Ah, e as viagens? Sempre íamos onde o mapa-mamãe indicava. Claro que adorei Veneza, claro que adorei a Grécia, mas puta que pariu, ela tinha que ir junto? Só faltava ficar no mesmo quarto, por medida de economia. A única a que não foi...foi na lua-de-mel, mas mesmo assim, tivemos que ir aonde ela e seu pai foram. Era como se os dois estivessem conosco na cama. Que droga!
Vou embora agora com a alma expurgada, mas não esqueça de pagar as contas em dia, viu? Não esqueça de tomar o remédio para a sinusite e muito menos esqueça o remédio do Júnior: são vinte gotas todas as noites, entendeu? Aproveite pra anotar tudinho aí na droga de proposta que está fazendo e que não podia interromper. Aproveite essas dicas e essas propostas, não cobro nadinha.
Bernardo, você não está me levando a sério?
Ah, os ternos deverão ser pegos na lavanderia na próxima quinta. Já estão pagos. O recibo está no espelho do banheiro. A despensa está cheia, dá para uns dois meses, mas não deixe de comprar algumas coisas de geladeira e frutas, semanalmente. O Supermercado da esquina recebe verduras, frutas e legumes fresquinhos todas as terças, mas tem que chegar bem cedo, senão acaba e olhe que é o melhor preço da praça. O Junior não gosta de cenoura, mas compre, pois a Nina adora. A Nina não suporta abacaxi, mas o Junior não fica sem. Ambos detestam abacate por causa do filme “O exorcista”, que você como sempre esqueceu de guardar, mas não esqueça nunca do melão que ambos adoram e que deve ser escolhido sempre se apertando a bundinha; se afundar, está maduro. Como a maioria das crianças, nem pensar em: jiló, chuchu e quiabo. Não esqueça de dizer para a empregada colocar beterraba no feijão, pois ambos não gostam, mas precisam da vitamina.
Pare de me interromper, seu estúpido! Louca eu fui quando me deixei sufocar assim. Aproveite a oportunidade e escreva, vamos! Sou a sua secretária mais que particular! Já antecipei para a empregada três meses de salário, anotou? E do meu dinheiro! Senão, desligado como é vai pagar novamente e sabida como ela é receberá duplamente. Mas não a maltrate, senão faz bico e bate panelas, mas é de confiança e conhece as crianças desde que nasceram.
A Nina tem consulta ao dentista na próxima semana e o Junior na semana seguinte para mais uma aplicação de flúor e não esqueça que ambos devem apertar os aparelhos uma vez por mês. O quê?!? Como, Bernardo, o Junior parou de usar as botas ortopédicas há dois anos! Ah, eu não te avisei. As reuniões de Pais e Mestres só acontecem nos finais de semestre, mas não deixe de pedir o boletim para assinar, todos os bimestres. Claro que, dependendo das notas, elas nunca se lembram de entregar.
Dona Vanda tem cardiologista no dia quinze e o seu pai não pode deixar de fazer a visita ao geriatra. Já tentei levá-lo, mas ele acha que não precisa. Insista, por favor. Não esqueça de dizer ao médico que ele é alérgico à dipirona. Lembra aquela vez lá na praia? Quase morreu. Nossa, já ia me esquecendo: nem por sonho deixe a Nina comer chocolate, mesmo que berre, senão a alergia ...Você não sabia? Ah, sim, claro.
Não deixe de mandar flores no aniversário da Liz, no próximo sábado, apesar do que eu disse a ela, sei lá...De repente, rola alguma coisa, não é?
Não, Bernardo, não estou brincando. As crianças gostam muito da tia Liz.
Ai, acho que não esqueci de mais nada.
Ah, o seu carro precisa trocar uma tal de cebolinha, mandei o mecânico para a puta que o pariu, mas ele reafirmou o diagnóstico e como não estou com saco para pensar em cebolas fora da cozinha, vá você mesmo resolver o problema.
Escreva aí, na sua executiva proposta idiota: se um dia nos encontrarmos; nem ouse me fazer outra proposta que não seja a de amante, pois suas cuecas borradas, meu bem, estão todas na calçada da rua feito bandeirinhas sujas de uma partida de futebol que acabou no zero a zero.
As demais coisas... Chega, agora estou cansada tanto quanto a minha orelha. Aliás, estou exausta. Cansei de falar ao vento. Cansei de falar aos cantos. Cansei de falar sozinha. Cansei de me cansar. Hoje quero um dia cheio de horas coloridas só prá mim. Sem agenda, sem cobranças. E só quero me fartar até ficar exaurida de mim mesma. Cansei...Adeus!!!
***
Vilma, o que foi isso? Alô, alô, alô! Filha da puta, desligou na minha cara, mas quando eu chegar em casa ela vai ver, ora se vai.
São Bernardo, é? Cadela!!!
E vai embora com quem? Mas qual será o vagabundo que ousou ser melhor do que eu? Frouxo? Eu?!?
Largando as crianças?!? Nossa, minha mãe já com aquela idade!
Bem que me diziam que casamento era coisa para otário.
E mulher um bicho complicado. Companheira do homem...Costela de Adão, tá bom. Meeerdaaa!!!
Numa coisa ela tem razão: sou um cretino. Aqui, com esta merda de gravata me sufocando e me matando para sustentar essa...essa...essa...
Meu Deus, a Vilma vai embora?!?
***
Alô, Nina? Nina? Que gritaria é essa? Nina, chame a ...
***
Pai, venha correndo, a mamãe beijou a gente e acabou de se jogar pela janela.
Pai? Pai? O que foi, ficou mudo?
O quê?!?
Não, claro que não, você também se esqueceu que estamos na casa da praia?
Só quebrou uma costela e se arranhou nos espinhos da roseira, coitada!

Apresentação...como sou

DOCE VIDA

Doce vida
doce vinda.
Catei a poeira do tempo
e areei minha vidraça
queria de graça
e sem qualquer trapaça
ver a vida
doce vida
doce vinda.
Limpei com rigor
minha privada entupida
coisas boas
coisas ruins
coisas sem coisas quaisquer
que arrecadei pela vida
doce vida
doce vinda.
Cumpri prazos
dei recibos
contei casos
ri sorrisos
pela vida
doce vida
doce vinda.
Que importa o que sou?
Que importa o que vi?
Que importa pr’onde vou?
Que importa d’onde vim?
Só me importa essa vida
doce vida
doce vinda.
Catada pelo cabelo
cheia dela me senti
sem canga e sem cutelo
só a marca do que é belo
a ela sobrevivi
só dela sempre bebi
só dela bebo ainda
doce vida
doce vinda.