Reciclagem

Sunday, July 17, 2005

SEVERINA

Ridículo...
Como um amante não correspondido
Ele defina!
Ridículo...
Como um bêbado falando coisa nenhuma
Ele alucina!
Ridículo...
Como um samba dançado em ritmo de bolero
Ele declina!
Ridículo...
Como um carteiro que lê a correspondência alheia
Ele bolina!
Ridículo...
Como o atravessador que onera o alimento do homem
Ele assassina!
Ridículo...
Meu peito dilacerado vaticina:
Vendo a alma ao Diabo que se fascina
Com os poderes lá do alto da cidade sem esquina
Fincou uma estaca no meu orgulho sem qualquer paliativo ou morfina
Visto roupa de palhaço pra alegrar minha angústia, construo uma imagem na minha retina
E espio pela janela da imaginação meu país que se ilumina
meu povo alimentado e sem medo de chacina
minha cultura respeitada sem nem saber o que é propina
minha Bandeira com “Ordem e Progresso” que em seu seio assina
agitada, afogueada, como uma mulher bem amada e com alma feminina
voando vento ameno nesse continente sereno como colorida pipa que uma criança empina!

O meu nome? Está na CPI do céu, DEUS é quem por mim assina
Não sei porque, mas Ele mesmo me deu o nome de Severina
Deve ser porque uniu tudo do que significa ter uma “severa sina”
Mas sou brasileira, rocha dura e esperançosa da sorte que a mim destina.

Edi Longo,
SBAT 030899
UM PAÍS CHAMADO PAZ!

Descobriram-me? Eu nunca estive coberto!
Corria moleque nu pelos meus verdes pastos
Bebia de minhas águas fartas e dela comia meu peixe
Não pedi nada a ninguém, esqueçam-me e me deixem!

Acharam-me? Eu não estava perdido!
Hoje sim, eu estou, não sei onde mais me encontro
Vago trôpego e me sinto afogando em areia movediça
Estupraram meu corpo, botaram-me alma postiça.

Nominaram-me? Eu tenho um nome próprio!
Uma marca feita à mão pela minha própria natureza
Sou um gigante liberto, pássaro em vôo rasante
PAZ é o meu nome e só isso já é o bastante

Colonizaram-me? Eu sou um continente!
Sugaram minha entranha, tirando dela riquezas
Rasgaram minha pele, rasparam minha cabeça
Afastem-se de mim antes que eu apodreça.

Catequizaram-me? Eu tenho minha cultura!
Não quero nada de ninguém, apenas o que é meu
Minha honra, minha hegemonia, tudo claro, nada oculto
Não preciso de heróis, muito menos de um corrupto!

Domesticaram-me? Eu não me deixo dobrar!
Sou maior do que vocês, súcia, ladrões, mentirosos
Filhos que dizem me amar enquanto me dilaceram
Comendo o pão dos irmãos que famintos adoeceram

Modernizaram-me? Não quero ser apenas uma máquina!
Quero meus primeiros filhos, puros e sem falhas de caráter
Quero a igualdade pra todos, nem precisam mais me amar
Os que me amam saberão o quanto posso lhes dar

Politizaram-me? Eu tenho minhas próprias leis!
Quero meus filhos nus e sem bolsos pra nada esconder
Quero meu corpo de matas e rios e fauna e flora
Não preciso de vocês, me deixem e vão embora!

Edi Longo,
SBAT 030899

Wednesday, June 22, 2005

BAH, CHE!

O calor estava sufocante. Entramos com desconfiança no avião. Procedência Russa. Bem, mas estávamos voltando. Olhei mais uma vez aquela paisagem: linda! Escutei com desinteresse o papo dos amigos de trás: a mesma coisa...falavam do furação Ivã, o terrível, que estaria se aproximando da costa cubana. Falavam com tanta displicência! E com tanto alívio por não estarem mais lá! Pensei no problema que aquilo traria para aquela gente já tão sofrida. Segurei-me para não brigar com Deus, como sempre faço diante de injustiças, mas como já estava tão perto Dele, implorei que os ajudasse. Recostei-me, relaxei e...

“-Quem é você?
-Não me reconhece? Bisbilhotou tanto o Museu que pensei, sinceramente, reconhecer-me-ia no ato. Tirou até uma foto comigo e com o Camilo Cienfuegos! E está vestindo uma camiseta com a minha cara!
Meus Deus, eu estava diante do Che! O próprio. Ernesto Guevara de la Serna. O Che!

-Ora, foi muito bom eu encontrar você, amigo. Essa camiseta com sua cara é apenas um pequeno “recuerdo” de viagem. Tenho dúvidas mais profundas sobre tudo o que vi. Por falar em ver...Viu o que a tal Revolução fez ao povo cubano? O que adianta terem hospitais, terem escolas, terem um par de asas os agasalhando, se não têm liberdade para voar?Parece que todo mundo tem medo de um Bicho papão.

-Acho que você não entendeu nada. E, o mais incrível, é que acabou de sair de uma ditadura militar. Que insensibilidade! Não podemos abaixar a cabeça para os abusos, temos que cultivar o ódio para combater o ódio, somente assim os combatentes se tornam fortes para vencer.

-Por que não semear o amor como exemplo para conseguir o mesmo amor, cabron? Não precisamos pegar em nenhum fuzil. Nunca ouviu falar de Gandhi? Na nossa bandeira, lê-se claramente: ORDEM E PROGRESSO, não: ESTUDO, TRABALHO E...FUZIL! Fuzil numa bandeira? Uma praça com o nome: das ARMAS? Isso incita à violência, não acha?

-E como você acha que combateríamos Batista e seus asseclas? Iríamos jogar palavras bonitas em cima de um soldado armado? Fizemos isso e não deu certo. É muito fácil apenas falar. Não se faz uma Revolução apenas com palavras, mas com armas. O ditador só entende essa linguagem: o cheiro da pólvora.

-Concordo. O nosso ditador Getúlio também a usou, mas a última vez, foi contra si mesmo para entrar para a história. Sei que antes de usá-lo em si, usou muito em outros. Bem...Para tomar conta da situação. Mas, vocês, depois que conseguiram tomar conta da situação, o que fizeram? Por que não procuraram instaurar no país uma democracia? Acha que era suficiente chegar diante de um povo molambento e perguntar: O que querem que façamos? Querem que coloquemos no paredão os traidores da Pátria? Você acha que esse povo assim inflamado iria responder o quê? Naquele momento, o povo colocaria Fidel no poder, homem. Eles não tinham em quem se segurar. Mas parece que o próprio Fidel adorou o poder e o tomou literalmente nas mãos, exercendo-o até hoje. Aquilo para mim, hoje parece a Revolução de um homem só.

-Naquele momento, precisávamos organizar tudo. Precisávamos de hospitais, precisávamos de escolas, de comida. Se não nos mantivéssemos fortes, fatalmente, iriam nos derrotar e tomariam novamente conta da situação. Não está lembrada do episódio em que os norte-americanos tentaram tomar a baía dos Porcos? Se não reagíssemos daquela forma, tudo teria sido em vão. O nosso sofrimento a bordo do Granma. O sofrimento em Sierra Maestra. Você não entende porque viu tudo em filme, em fotos, em Museu, em escritos, em palavras. Pare! Coloque-se em nosso lugar.

-Mas já se passaram quarenta e cinco anos, Che! Por que Fidel não preparou esse povo para escolher um outro dirigente? Ah! É bem mais fácil disseminar uma propaganda absolutamente comunista, né? No abecedário das crianças só deve ter a letra C (de Cuba, Comunismo, Carência, Calados...); crianças essas que hoje já têm em média 40 anos de idade. Que nunca saíram dos limites da ilha e, os que tiveram licença para sair só o faziam para ir à URSS, para serem mais massacrados de propaganda. Outros mais ousados, tentavam fugir em barcos mal preparados e quando não eram recapturados, morriam afogados. Crianças que nunca conheceram outra coisa além de suas próprias idiossincrasias, que até eram proibidas de sonhar, pois não adianta ter sonhos irrealizáveis, porque para isso precisa-se de liberdade.
-Mas o que adianta ter liberdade se não se tem condições para tê-la? Fomos embargados pelos EUA, fomos cercados como animais dentro de um chiqueiro. Se eles pudessem, tornar-nos-iam novamente o seu quintal.

-Claro que conheço todos os problemas que sofreram depois da Revolução, Che, mas...

-No seu país, vocês comem liberdade? O que adianta a liberdade se muitos de vocês vivem na rua; se muitos reviram lixos; se muitos morrem antes mesmo de nascer; se velhos têm que continuar trabalhando porque a parca aposentadoria mal dá para comer; se muitos não sabem também o que é liberdade, pois não sabem nem escrever? Acha que liberdade é apenas o ato de ir e vir? Ir para onde, vir de onde? Ir para qual viaduto? Vir de qual esgoto imundo?”

Aqui, precisei de um fôlego. Lembrei instintivamente, que alguns de nós matam até os moradores de rua e senti um calafrio. Estamos em plena guerrilha urbana! Mas, podíamos cobrar de quem escolhêssemos...bem, de qualquer forma, acho que os noticiários não chegam lá em cima. Ainda bem!

-Sempre o mesmo velho discurso. A URSS quebrou, camarada. Partiu-se em mil pedaços como um cristal vagabundo. Já foi comprovado que a Teoria Marxista-Leninista é apenas um amontoado de sonhos.
-Que não deram certo, por causa de pessoas incrédulas como você, que têm medo de se molhar, preferem ficar eternamente embaixo de um aconchegante guarda-chuva.

-Claro que abomino o consumismo imperante no Capitalismo, mas depende de cada um de nós saber como administrar a própria casa, sem qualquer fuzil nos obrigando a fazer do modo que ele acha certo. Nossa cidadania é soberana. Ninguém invade nossas mentes, aí está a LIBERDADE. Nós podemos pensar livres e transmitir tudo, educando nossos filhos através de exemplos. E optamos por nossos dirigentes. Muitos outros países se abriram para vocês. Vi investimentos canadenses, vi investimentos espanhóis, deixa disso. O que acontece é que Fidel fez uma lavagem cerebral em Cuba e...Valeu a pena?”

Acordei com um solavanco. A voz da aeromoça anunciava: “Chegamos a São Paulo!” Ai, agora quem sentia alívio era eu!

A voz de Che batia insistentemente na minha cabeça como uma cefaléia intermitente: “Ir para onde? Vir de onde?” Lembrei-me de Berta, nossa guia em Havana. Parecia orgulhosa da Revolução. Seus olhos brilhavam quando falava de Jose Marti, poeta brilhante e revolucionário apaixonado. Ela tinha estado na Bulgária, fazendo estágio. Era uma enciclopédia ambulante da história de seu país. Em compensação, lembrei-me do vendedor de cocos em Cayo Largo, que ao ser questionado por mim se se sentia feliz com a situação política, disse-me com um olhar meio desconfiado: temos tudo, mas...não temos liberdade, tudo é proibido! Essa incoerência ficara martelando a minha consciência.

Na verdade, aquela ilha é tão pequena e desprotegida! Apesar de todo aquele mar lindo que a circunda, ela é carente de água potável impossibilitando as policulturas agrônomas. Na verdade, ela necessita do produto de outros países. Do petróleo, do investimento, de tudo. Que pena que a Cuba dos sonhos de Che não tenha se concretizado. A Cuba Libre que hoje se tornou apenas uma bebida para turista ansioso de novidades. Saúde, cabron! A Cuba dos seus sonhos seria até covardia. Os anjos iriam querer morar ali.

Sorri internamente. Aquele homem foi um herói não só lá, mas em lugares onde o humano era oprimido. Che é apenas e tão somente um defensor dos mais necessitados. Abdicou tudo que Cuba lhe deu para acolher outras lutas. Era um sonhador corajoso.

Acho que o entendi. Nunca suportei o julgo do homem sobre outro homem. Nunca! Por isso eu sempre o admirei mais do que a Fidel. Acho que se fosse ele que tivesse ficado no governo de Cuba...Mas, por outro lado, ele era um estrangeiro. Vivo, acho que hoje ele estaria decepcionando parte do povo como o seu amigo Fidel. Vai se saber. Morto, virou um ícone! Lutara por povos que não eram seus! Passei a mão no peito, afagando a camiseta com a típica estampa do Che e lembrei da frase ao lado dela lá no Ministério das Indústrias, na praça da Revolução: Hasta la vitória siempre! Ainda retruquei, sorrindo: À vitória da liberdade, cabron, siempre!
Chegamos.

Ainda me questionei: será que eu teria esse desprendimento? Será que brigaria por outro povo que não fosse o brasileiro? Recolhi as minhas bagagens de mão e, tive que me segurar para não dar uma de Papa e beijar o chão.
Em casa, liguei o computador e resolvi fazer a minha revolução particular, apenas com palavras...só palavras, como uma oração, quem sabe Deus não me ouvirá?

Que Ele proteja todo o nosso Planeta Azul do julgo daqueles que se julgam donos de outrem!

Né Fidel, né Bush?

Bah, Che!

Monday, June 20, 2005

A SOCIOPATA

--A Teodoro, por favor?
--Também te adoro, meu amor!
Pronto. Minha noite tinha começado. Sabia que ia dar nisso. O engraçadinho do carro ao lado, saiu gargalhando e sem dar a informação. Que vontade de voltar pra casa. Ademais, em pleno verão, qualquer lugar deve ter aquele cheiro execrável de suor, cigarros e bebida no ar. Por outro lado, se fosse inverno, teria o cheiro de naftalina. A humanidade fede. Deus deve estar cansado dela e com razão. Daí os tsunamis, os terremotos, as epidemias. A volta ao caos para uma nova criação. Como se Ele pegasse o seu pincel e lambuzasse a tela, confundindo tudo.
Ah, cheguei sozinha à Teodoro. Agora é só virar a Mourato e cair nos braços notívagos da Vila Madalena. Que coisa mais besta, alguém comemorar aniversário em barzinho e ainda cada convidado que pague a sua consumação. No mínimo, vou gastar o dinheiro de um bom livro sobre contabilidade e economia. Aliás, que coisa mais besta alguém perder uma boa noite de sono só porque é sábado. Pra mim, sábado é dia de chinelão, pijama e solidão. No máximo, um filme de terror acompanhado de uma água tônica gasificada e um saco de soníferos para depois.
Mas, o que dizer na segunda? Tem-se que ter algo pra se falar. Por que? Odeio festas, odeio aglomerados, odeio gente. E se de repente, encontrar o chato da informação? Com certeza deve ser amigo do desgraçado que me convidou. Já imagino a cena: vai me reconhecer e contar pra todo mundo a brincadeira que fez.
Mas o aniversariante é o Chefe da Seção. Ai, meu Deus, vou ter que dar aqueles dois beijinhos de parabéns e sentir aquele cheiro de lavanda barata. Aposto que não vai nem olhar para a gravata que comprei. Já estou vendo a coitada servindo de coleirinha de cachorro. Arre! Odeio animais. Não entendo como alguém os levam para casa e às vezes, deixam até dormir na própria cama!
A chata da Mariana vai estar lá com certeza. Olhando-me de cima a baixo, cochichando com a Bete que vai chamar a Cris, que corre para a Laura e todas farão uma tese de doutoramento sobre a minha roupa que não combina em nada.
O que vou falar se alguém se aproximar? Detesto falar. Principalmente, nestes lugares onde você não fala, você berra. Vou ter uma faringite, com certeza. O que vou fazer se alguém me convidar pra dançar? Detesto dançar. E aposto que são aquelas músicas que parecem um exorcismo. Vou torcer o tornozelo.
Cheguei. Quanta gente! Quantos risos, quanto fingimento. Ninguém pode estar feliz num lugar assim. Não, definitivamente, não! Mil vezes não! Está decidido.
Vou pra casa ficar aguardando ansiosamente a musiquinha de encerramento do Fantástico e dormir sonhando com a sinfonia paulistana do Billy, segunda: “vão bora,vão bora, tá na hora”. Ah, e a voz melodiosa e repetitiva da Pan: “em São Paulo, sete horas”. Que felicidade! Se alguém perguntar porque não fui, ora... Como sempre estive viajando.


Edi Longo.
SP., 22/02/05

Tuesday, June 07, 2005

Brincando nos corredores da vida
(Prô Claudio-o pai, companheiro de brincadeira
e sempre amigo)

Escondida atrás da porta ri ao ver o meu retrato
estampado na parede de minh’alma amarelinha
cheguei na casa do céu numa rápida corridinha
meu coração pulava corda batendo desrritmado

Jogando bola queimada esbarrei num garotão
quis jogar xadrez comigo, preferi um pega-pega
perdeu-se então de amores no jogo de sedução
unidos curamos os tombos levados do escorrega

Muitos prazeres tivemos ao subir no carrossel
os cavalinhos rodavam e a gente comia pipoca
ouvindo Chico cantando e nos levando ao céu
esquecendo a roda-viva que a rotina provoca

Saindo da faculdade, brincávamos de “adivinha?”.
um dava o tom de uma música, outro dava a letra
oh! Doce castigo: era um beijo e outra batidinha
feita no “Rei das Batidas” que abençoava a treta

A grana era sempre curta e tudo ia prô: aí, pindura!
Acabava-se tudo em piadas, falando mal do governo
poesias feitas às pressas eram escondidas da criatura
com disfarce tão ridículo que jogávamos sons à ermo

Resolvemos brincar um dia de médico e enfermeira
trocamos alianças jurando amores eternos no anelar
numa palavra cruzada brincamos de nos multiplicar
jogamos esperma no óvulo, brincamos de trepadeira

E assim quando nós vimos brincávamos de reaprender
a vida que é a brincadeira com nossos filhos a ensinar
os pais só aprendem a crescer, quando têm que receber
os resultados das brincadeiras que viveram a praticar

Agora as brincadeiras são mais calmas, mais amenas
tornamo-nos reis, rainhas, damas e valetes sem medo
dados são ainda jogados, com menos riscos apenas
a vida tem um corredor? Oba, faremos dela brinquedo

A bengala servirá de ajuda pro pé-na-lata
a cadeira servirá de carrinho de rolemã
assim, brincando ainda na curva da estrada
chegaremos ao final brincando até de manhã!

Edi Longo,
SBAT 030899

Wednesday, May 18, 2005

POLÍTICA DA BOA VIZINHANÇA

Não peço nada a ninguém nem à vida
ela que me dê o que acha que mereço
quando recebo uma graça merecida
apenas a quem me enviou eu agradeço

prô amigo e prô inimigo todo dia eu peço
em dobro tudo o que a mim desejar
e “meu” Deus que mande, isso eu meço
se for bom ou ruim foi Ele, não eu a revidar

Faço só aquilo que a ninguém prejudique
coloco em minha face antes de dar o tapa
dor, angústia, vergonha e tudo o que fabrique
problemas pra quem na vida é o meu comparsa

Se não puder ajudar, também não atrapalho
se não souber aconselhar, silencio e não falo
acho que assim sigo sem ter o trabalho
de me desculpar se pisar n’algum calo

Se não sabemos fazer, pra que fazê-lo?
Deixemos que outros façam melhor por nós
insubstituíveis não somos, esse é o segredo
da boa política pra não estarmos sós

Quando não sei algo, pergunto humilde
o mundo é tão vasto pra se conhecer tudo
outros sabem mais e sem qualquer melindre
aprendo com a vida que é o meu estudo

Às vezes, claro, como qualquer humano
dúvidas me abatem, coisas do cotidiano
bebo filosofias com um ardor freudiano
brigo com “meu” Deus num diálogo profano

quando do “meu” Deus falo, eu faço questão
de sempre colocar pronome possessivo
pois alguém pode achar, com toda razão
que seu Deus é outro, muito mais passivo

O meu é intempestivo, um amigo íntimo
que como todo amigo, sempre está brigando
se piso na bola, fica mudo e num gesto ínfimo
nunca me responde, sempre me xingando


E desta forma a gente vai vivendo
eu preciso Dele, Ele me consola
Ele não precisa de mim, mas vive me dizendo:
aprenda com a vida que é a grande escola

Sem vaidade vou meu mar singrando
meu barco é à vela e depende do vento
quando ele falha, ouve meu lamento
põe-me novamente na rota e no comando

A única coisa que a mim me importa
é ver meu semelhante feliz e completo
pois assim não vem bater à minha porta
entristecendo meu ego que quero liberto

quero dividir alegria, não uma esmola
quero plantar sementes, não secar um tronco
quero elo de mãos, não grilhões que esfola
quero disparar na vida, não parar num tranco

quero fantasias, gente bem nutrida
quero cara limpa, não cara pintada
quero político sério, não massa falida
quero fome nula, não a zero oficializada

ah, “meu”amigo Deus, por que não escreve certo?
Nossas linhas são paralelas, não são linhas tortas
estamos na mesma casa sem tramelas e sem portas
indefesos humanos com braços abertos

Pra colher, pra aprender, pra receber, apenas homem
não somos cristos, nem pretendemos sê-lo
numa cruz gritaríamos, sujando Seu nome
apenas ouça meu covarde apelo:

Só queria que todos meus vizinhos planetários
vivessem com as mesmas benesses que tenho
sou apenas um ser que em sonhos solitários
almeja pra todos melhor desempenho

Sonha acordada que não há mais guerra
o Planeta não está dividido em nação
apenas humanos usando essa Terra
vivendo em paz e em total comunhão

imagino todo mundo tendo tudo:
trabalho, saúde, lazer, educação
os jovens crescendo e, sobretudo
gozando os privilégios da ilusão!

Os adultos podendo legar aos filhos
tudo possível com o máximo conforto
pegando sem perigo um trem sobre os trilhos
Sem quaisquer reveses ou caminho torto

E quando velhos, que olhem pra trás
dormindo tranqüilos seus corpos cansados
não pobres mendigos carregando cartaz
qu’alguns hoje vestem com olhos magoados

E ver as crianças, seus netos chegando
esperando da vida o que sabem que vem
não decepcionados, sempre e quando
a vida lhes joga uma moeda com desdém

E assim, cumprindo o nosso percurso
completando nossa mais fantástica viagem
com diplomacia e pouco concurso
deixamos a visão dessa nossa estalagem

Pra viver tão pouco se é necessário
fixo “mens sanna in corpore sanno”
na porta do meu pobre e podre armário
que veste minh!alma como qualquer pano

acabamos todo mundo do mesmo jeito
na mais passiva e fria horizontalidade
pra que querer ser mais que um sujeito
se precisamos sempre da adjetividade

que nos classifica de bom ou ruim
dependendo dos verbos acionados
somos simples objetos com um fim
pela morte seremos todos nivelados

Pra viver só se precisa vida, isso é lei!
ter vida só se precisa saber viver - Ei!
Pra que a vida complicar, querer ser rei?
“Amai-vos uns aos outros, como Eu vos amei”.

EDI LONGO,
Antes e de qualquer coisa, gente.
SBAT 030899

Thursday, May 12, 2005

A MISTERIOSA DAMA

Olhei-a com pavor a princípio.
Aqueles traços marcantes, aqueles olhos frios e penetrantes
me rasgavam como um desafio.
Fui descendo o olhar e seu colo me pareceu um infinito lugar onde se pode acolher,
embora sem muito calor, uma multidão de filhos.
Os seios pontudos e firmes me levaram, ludicamente, a um piquenique no pico do Jaraguá.
Parei o olhar lascivo no seio esquerdo
e lá estava o Masp pulsando como um coração ardente em plena Avenida.
Quase num torpor alucinógeno, num sonho delirante, percorri seus braços nus
e as veias transparentes me fizeram navegar no Pinheiros e Tietê.
Tentei, honestamente, tentei desviar o olhar daqueles pelos tão íntimos
como uma mata inexplorada,
simbolizando a sua mais sensual maneira de receber seus hóspedes
nas ensolaradas tardes do Ibirapuera.
E ela continuava ali.
Intrigante.
Intrigando-me.
Desviei o olhar, mas no meu pensamento continuei a desnudá-la, tentando entendê-la.
Ela é tão elegante quantos os seus Jardins e ao mesmo tempo
tão simples quanto os casebres de suas Vilas.
Que sensualidade existe em sua boca noturnamente alucinante!
Que vigor existe nas ações dos seus dias!
E, depois de muito tentar, ela finalmente cedera.
Eu a dominei, pois a compreendi:
Ela é maternalmente mulher, pois acolhe muitos filhos.
Ela é sedutoramente mulher, pois se dá pra todo mundo.
Ela é misteriosamente mulher, pois se deixa conquistar.
Ela é tão brasileiramente mulher, que somente no seu útero fecundo poderia
acontecer a nossa Independência!
E daqui, do topo deste apartamento onde dividimos nossas horas amantes,
olho-a mais uma vez dormindo com sua respiração calma e profunda
e percebo quanto a amo.
São Paulo, a minha linda e misteriosa dama!



O ABORTO PERMITIDO

Como seria a composição de um sujeito
quando Deus no silêncio de seu atelier
pincela com esmero e tinge o peito
mas, borra-o, limpa e apaga esse ser?

Será que esse desenhado esboço
pelas mãos divinas projetado
merece acabar num calabouço
no espaço escuro relegado?

Será que Deus comete algum equívoco
quando lhe escapa das mãos um gameta?
Ou será que nos testa e põe um crivo
Como um perspicaz e sério estafeta

E assim, na limpeza de seu quadro
não estraga tinta boa numa tela
redesenha outro ser na aquarela
economizando seu bom e sacro barro

e aquele que apagou ficou nas estrelas
outro vem pra cumprir o seu papel
vidas ruins, tem razão, melhor não tê-las
melhor ser um ser perdido lá no céu

E quando Deus se distrai o que acontece?
Nasce um Nero, um Calígula ou um Hitler?
Deus! Um calafrio acalanta minha prece
devias ter apagado quem fez a pólvora e o rifle!

Seria então considerado um aborto?
Quais leis a Deus seriam impostas?
Se desdesenhou e desdenhou um corpo
caberá a quem é humano as respostas?

Como tudo a Deus é permitido
espero que continue abortando
qualquer facínora entre nós metido
pro mundo continuar em paz girando.

Edi Longo,
SBAT 030899


GANÂNCIA E LUXÚRIA

O caminho feito pelo navio parecia um desenho de criança. O azul profundo era singrado pelas linhas tortas em branco. A gaivota se aproximou e colheu o pequeno pedaço de pão que ela jogou. Ficou observando aquele olhar absorto. Estaria pensando nos deuses e seus poderes? Quem sabe não seria Atenas e aquele mar era o chafariz de suas lágrimas? Podia ser. Via rugas de preocupações em sua testa. Ela se voltou e ele desviou o olhar. Ela o fixou. Ele ficou cabisbaixo. Teria percebido? Era tímido e aquela viagem era um sonho de muito trabalho, de muitos anos. Voltou o olhar para o livro que estava fingindo ler.

À noite, ela estava sentada à mesa com um homem. Não sabia bem porque, mas sentiu um peso no peito. Ela ria pra ele, ele acariciava a sua mão. Sentiu ciúmes. Em apenas três dias, aquele homem já a conquistara! Sentiu-se o maior dos incompetentes! Viveria para sempre sozinho. Procurou se sentar o mais distante possível para observá-los como se fossem dois animais em exposição. Como ele era ridículo com aquele levantar de sobrancelhas “à lá Clark Gable”! Definitivamente, ridículo. Ela, bem...Indefinível! Riso com duas covinhas, olhos negros, sobrancelhas espessas, dentes brilhantes e branquíssimos como as ruas pintadas de
Mikolos.

Ficou perdido entre a análise e a imaginação de saber o que faria com aquele monumento. Assustou-se quando sentiu uma pressão no seu ombro. Era ela! A cadeira ao lado estava vaga e ela se sentou. Ficou sem fôlego e apenas gaguejou:

---Tudo bem?

---Tudo. Por que não me paga um drink ao invés de ficar fazendo uma autópsia de mim?

--- Desculpe. Não pensei que tivesse percebido.

--- Não poderia deixar de não perceber, tantas foram as vezes que me senti nua.

---Desculpe, mais uma vez. Não quis ofendê-la. Perdão. Onde está seu companheiro?

--- Companheiro?!? Mas...estou viajando sozinha.

--- Agora a pouco você estava acompanhada de...

--- Desculpe, mas você é muito estranho. Estou viajando sozinha, já disse.
Não quis insistir, mas tinha certeza que ela estava acompanhada. Fixou o lugar de onde viera e realmente, o homem não estava ali. Sentiu um tremor involuntário e mecanicamente a convidou para ir até ao convés.

A lua estava linda refletindo o prateado nas águas do Egeu. O céu bordado de estrelas, pensou quase rindo de sua definição tão vulgar. Sentiu-se ridículo tanto quanto o falso Clark Gable. Não sabia o que falar. Apenas pensava no homem que a estivera acompanhando ao jantar.

--- Então, o que faz?

--- Sou médico. E você?

---Ah! Agora entendo a perspicaz observação. Eu sou uma deusa. A do amor. Afrodite.

---Vamos, pare de brincar.

---Mas é verdade. Meu nome é Afrodite. Minha mãe é brasileira e meu pai é grego. Meus avós paternos moram em Rodes, a nossa próxima parada. Estou indo visitá-los.

---Sim, mas qual...

---A minha profissão? Já disse: vivo do amor. Gostei do nome e me dedico a ele de corpo e alma. Sou o que se chama no Brasil: uma garota de programa, ou mais especifica e friamente, uma puta. Mas vou avisando que estou de férias.

---Nem passou pela minha cabeça...

---Passou. Sei reconhecer um cliente, meu caro.

---Não, juro que não. Claro que você é linda, mas jamais pensaria em ...

---Pagar para amar?

----E aquele homem que estava com você quem é? Não queira me convencer que não estava acompanhada, por favor.

---Não tenho a mínima idéia do que está falando, já disse que viajo sozinha e o que menos quero é um envolvimento com alguém, a não ser para fazer o que estamos fazendo: um gostoso papo, mesmo porque em férias, ninguém trabalha.
Ficaram horas conversando. Ela, agora, parecia-lhe uma personagem de uma revista em quadrinhos. Desenhada. Era formada em psicologia, mas realmente preferia se prostituir. Tinha prazer em pertencer a muitos homens e ao mesmo tempo não pertencer a nenhum. Era seca nas suas colocações e achava a coisa mais natural do mundo a sua opção. Gostava do sexo pelo sexo e pelo dinheiro, mais nada. Confessou que fazia sexo até com mulheres, desde que pagassem e bem, claro! Tinha uma cultura fantástica e todo o dinheiro que ganhava, gastava em viagens. E o dinheiro era o seu deus. Ele foi feito para o mercado, afirmava rindo e, deveria circular de mão em mão por isso ela o adorava. Adorava tudo o que o dinheiro podia lhe dar. Luxo, beleza. Confessou ter feito cinco plásticas. Gargalhando diante de seu ar perplexo, disse-lhe que apenas o rosto era dela, enquanto o tempo deixasse. O resto, era da medicina. Conhecia música brasileira como poucos e tocava maravilhosamente um violão que foi buscar na cabine. A voz era límpida, apesar de fumar um cigarro após o outro e beber uísque como se fosse água. Apesar da decepção, sentiu-se atraído ainda mais por ela. Despediram-se com um aperto de mão singelo e um "boa viagem", pois ficaria em Rodes no dia seguinte.

Não conseguia dormir, quando viu o dia estava clareando e já era hora do café da manhã, pois o navio atracaria em Rodes onde um ônibus levaria os turistas para um passeio. Sentia-se vazio, como se algo houvesse lhe escapado do peito. Não se lembrava de um dia ter estado tão triste. Procurou-a com os olhos e quase gritou quando a viu sentada com o mesmo homem da noite anterior rindo e se acariciando. Não se conteve e tentou se aproximar, mas o movimento das pessoas que procuravam o seu café nas bancadas expostas, impediram-no de chegar a tempo. Quando viu, a mesa onde ambos estavam, era um vazio cheio de interrogações e dúvidas. Apertou as mãos para se cientificar de que estava acordado.

Estava com os pensamentos revoltos e se pudesse, ficaria no navio, mas era norma todos saírem para que a limpeza fosse feita e, cabisbaixo, desceu as escadas. Sentou-se no banco do ônibus indicado pelo guia , estremecendo ao ouvi-la:

---E então, o que está achando da viagem? Você vai adorar Rodes, apesar de que, cá entre nós, não conte nada aos historiadores, mas o tal colosso nunca existiu, sabia?

---Parece que as coisas aqui são todas lendárias. Nunca existem! Onde está o tal homem?

---De novo?

---Eu vi vocês no café da manhã!
---Já disse que estou sozinha. Por que então, ele não estaria comigo?

---Ora, você já chegou ao seu destino.

---Muito bem, vamos fazer uma coisa. Assim que chegarmos ao centro da cidade, pegamos um táxi e você vai conhecer os meus avós, topa?

---Sério? Mas não posso ficar sem o ônibus.

Acabou indo. Os avós existiam, graças a Zeus! Eram dois simpáticos gregos que recebiam como ninguém. Ela traduzia o que ele dizia e vice-versa. A casa era de pedra, linda! Várias plantas e flores a tornavam mais ainda acolhedora. O almoço delicioso foi servido numa mesa, também de pedra, no jardim. Ele ficou maravilhado ao ver o carinho que ela tinha para com os avós. Levara muitos presentes. Seu semblante agora lhe parecia a estátua de uma deusa, daquelas que vemos espalhadas pelas inúmeras relíquias do fantástico mundo grego. Ganhou dos velhos um rosário, peça que manejam com habilidade e que serve para filosofarem ou apenas para fugirem do estresse. Tomou um último gole de "ouzo", a bebida regional, e se despediu. Mal chegou ao portão e sentiu uma pancada na cabeça, sentindo-se ser arrastado para uma espécie de porão. Pegaram sua pequena mochila onde estavam todos os dólares, os euros e os dracmas. Tudo o que era seu de valor estava ali, pois era recomendado que não deixassem nada no navio, quando fossem descer.

Percebeu numa fração de segundos que tinha sido usado como isca. A sua deusa da ganância e da luxúria continuava brincando com seus pensamentos confusos, mas entendeu tudo. Ela vivia ali mesmo. O navio servia para atrair os peixes para serem desovados. Não entendia direito o que falavam, pois riam muito da facilidade daquela operação e, antes de fechar definitivamente os olhos, pode visualizar a figura do homem que estivera com ela no navio.

Acordou, inexplicavelmente, num hospital em Atenas e ao dar o presente depoimento, o policial apenas o olhava com incredulidade, balançando a cabeça. Percebeu que sua história ficaria como as dos deuses, para sempre no imaginário mundo grego, onde tudo parece virar magia.

EDI LONGO
SBAT 030988

NAS NOTAS DE UMA CANÇÃO

Pegou a agenda e depois de uns minutos, jogou-a num canto. E-mails antigos falando de negócios; telefones antigos de amigos perdidos; tudo antigo... Ana Claudia desligou o computador desanimada. Acendeu um cigarro deixando-se vagar nas espirais da fumaça.

Até ela estava ficando antiga como uma foto em branco e preto numa moldura oval. Riu triste pela comparação. Olhou-se no espelho e a imagem plastificada parecia não a reconhecer. Sentia-se enrugada por dentro e em cada dobra uma coisa tinha ficado escondida: o filho que não tem, o companheiro que não tem, o amigo sincero que não tem.

Ligou o som para ouvir alguma voz no silêncio. Parou como que hipnotizada. Olhou surpresa para o aparelho. Por que essa música? Saiu.

De repente estava diante do bar da moda de seus longínquos vinte anos, como se tivesse sido levada pelas notas daquela canção. Entrou.

Procurou inconscientemente pelos amigos na mesa do canto. Vazia. Onde andariam?

O local estava semi-escuro. Uma música mecânica como ela ao sentar-se, inundava aquele ar tabágico. Um garçom se aproximou. Olhou-o na esperança de ser o velho Zimba. Até um garçom conhecido seria bem vindo. Alguém precisava ajudá-la a carregar aquele peso de cinqüenta anos.

Estava se levantando para sair, quando do velho piano as notas de uma saudade latente começaram a se misturar com a espiral de seu cigarro. Com as pernas trêmulas, tornou a sentar-se: era ele! Miguel. Só Miguel sabia tocar dessa forma “As time goes by!” Será que deveria se aproximar? Não! Não conseguia se levantar.

Sentira-se bem no conforto de seus braços jovens e fortes naquele quartinho apertado da república. Tudo tinha que ser feito muito rapidamente, pois logo o lugar seria tomado pelos amigos que vinham encontrá-los para viverem as ações noturnas da cidade. No bar deles, naquele bar onde ficavam horas e horas discutindo sobre os assuntos da Faculdade. Quantos problemas econômicos, sociais e políticos do país tinham sido resolvidos naquela mesa do canto, pelo menos nas suas cabeças aladas. Quantas músicas proibidas eram tocadas. Quantos segredos e medos. E quando alguém suspeito aparecia, Miguel o envolvia com “As time goes by”, fazendo-o também viajar nas notas daquela canção.
***
O homem ao piano tocava sem nem ao menos olhar para os próprios dedos que corriam como se tivessem feito esse movimento desde a maternidade.

Os olhos vagavam de uma mesa para outra, absolutamente inexpressivos. Os cabelos lisos e oleosos acentuavam mais ainda a aparência desgastada, como o terno velho e amarrotado que usava.

Tinha quarenta e oito anos e parecia Atlas carregando o Globo nas costas encurvadas. Ao lado do piano, um banquinho com um copo semivazio e um cigarro no cinzeiro. De vez em quando olhava para a espiral do cigarro e parecia procurar uma lembrança. A testa já escasseando de cabelos mostrava uma ruga profunda entre as sobrancelhas espessas.

O despertador me acordou com essa música. Será que dei o leite para o gato? Será que desliguei a televisão ao sair? Ah, não tenho mais gato nem televisão. Onde será que deixei o meu último rastro? Onde será que deixei cair o meu último olhar de interesse? Por onde andará a minha vida? E a minha morte?

A mulher naquela mesa parece tão interessada. E por que será que está olhando assim pra mim? Bonita, parece alguém que conheci...Bobagem! Maldito vazio. Parece que fui esquartejado e esparramado pelos porões daquela prisão. Só me lembro daquelas paredes impassíveis. Sempre. Só ficou a lembrança de todos fugindo procurando um futuro e eu ficando à cata de um presente, como um mendigo numa lata de lixo. Catando desesperado pedaços de liberdade.

Por que será que hoje eu escolhi essa canção? Não consigo me recompor nem voando nas suas notas!

***

A música acaba.

O homem se aproxima do balcão e pede mais um uísque.

Ana Claudia também se aproxima e com o coração disparando estanca. Fica por uns instantes observando aquele pescoço flácido que um dia tanto beijara. Aqueles cabelos oleosos escorregariam agora os carinhos de suas mãos. Aquele corpo arqueado parecia pedir socorro ao invés de protegê-la. Trêmula se aproxima mais e sem querer derruba o copo da mão do pianista. Olha instintivamente as mãos. Lindas, longas e mágicas. Apenas elas pareciam agora o seu Miguel.

Estremecera ao sentir o toque sutil em seu rosto. Seu corpo se inundara de êxtase quando elas apertavam a sua cintura. Somente elas conseguiam levá-la para qualquer lugar do planeta.

Como acordada de um sonho mágico, sussurrou um pedido de desculpas num fio de voz quando o homem a xingou indignado.

Aquele olhar que tanto um dia a enlouquecera fitou-a, frio. O mesmo frio que percorreu sua espinha quando fora presa e depois deportada, desviando-a de sua história. Como teria sido?

Desviou também o olhar do vazio daqueles olhos e, num instante, percebeu que o seu Miguel continuava preso, mas agora na sua saudade e nas notas de uma canção.
EDI LONGO/SBAT 030899

Wednesday, May 11, 2005

ABOIO

A boiada estoura na descida da colina
Chico Lins abóia com sua voz pequenina
Mimoso se achega amável e, dócil inclina
O dorso generoso pra acolher Rosalina

A moça monta manhosa e lhe acarinha a crina
Ele se levanta jeitoso pra não assustar a menina
Chico canta seu aboio e a boiada se reanima
Juntam-se novamente e sobem ladeira acima

O pasto verde e farto à beira d’água do rio
Dá-se com benevolência aos animais –bem macio
A natureza completa o quadro soltando o passario
E a terra toda parece um gozo de eterno cio

E nesta doce visão daquela linda paisagem
Minhas lembranças vagueiam dentro daquela miragem
Como se fosse um oásis prum cansaço de viagem
E sinto o cheiro e o gosto daquela linda pastagem

Ô boi, ô boi, eepaê, boi!
Chico Lins e a filha linda
Ambos incrustados ainda
Na minha infância que foi.
IRRACIONAL PENSAMENTO

Sou...
A pulga que caminha pelo seu corpo inerte de intelectual; você coça de um lado, eu mordo do outro. Sou mais lépida e corro rápido para outro e outro lugar, divertindo-me à beça. Acorde para a vida, criança, largue esse dicionário velho de sua biblioteca, que só tem palavras soltas e não falam de nada. Elas precisam ser acarinhadas para terem ação.
Sou...
O bicho carpinteiro que pega o martelo e bate na sua cabeça de porco para excrementar as fezes de pensamentos ímpios que a fomentam. Bato mais e mais e você pensa que é dor de cabeça, que nada. É sua acomodação rodeando o centro que você acha que é. Olhe para cima, para o lado, para baixo, sempre há alguém por perto que precisa de você.
Sou...
O bicho da seda que faz lindos vestidos para cobrir a nudez dos corpos impuros que bailam música pornô nos cabarés da vida. Não visto almas. Estas precisam sair às ruas nuas, para vestir com bondade os corpos dos homens nus que dormem sob viadutos. Precisam lavar suas feridas, alimentar suas vísceras, vestir sua dor.
Sou...
O rato que corre rápido pelas profundezas do mundo, deixando em cada bueiro as fezes que nas inundações de chuvas vêm para limpar a sujeira dos homens, causa peste bubônica para expurgar os pecados daqueles que não cuidam da Terra. Usam-na, apenas.
Sou...
O camaleão que gargalha à medida que muda de cor e foge da fúria daqueles que devastam e tornam cada vez mais careca o nosso planeta que de azul só tem a raiva. Brinco de esconde-esconde fugindo de você, meu dessemelhante, pois só entende o que quer e o que é convencional, com regras de cabideiro e talheres certinhos à mesa. Baile pelado na chuva, lave-se e ria feito louco! O tempo urge!
Sou...
O camelo que guarda no seu enorme tanque d’água, mil peixinhos nadando para comê-los mais tarde. Previdente o Seu camelo, não acha? Está rindo do quê? Reserve também para o futuro um pouco de benevolência para com o próximo. Estamos apenas no começo do terceiro milênio. Não só guarde, mas distribua.
Sou...
A barata horrorosa que você, com nojo, nem pisa pelo líquido asqueroso que sai de meu corpo imundo. São as fezes de meu alimento, pois senão, a sua linda cozinha que cozinha suculentos pratos servidos à francesa, estaria cheia de moscas e insetos voadores que passeiam folgados e espreitam o seu sono injusto. Não jogue o resto desses alimentos no triturador da pia, faça uma sopa e doe! Dói? Ó, dó, que dor!
Sou...
A cobra, cujo veneno não mata, mas que cobra... que cobra... que cobra de Deus, do Demônio, dos Santos, dos Anjos, dos Homens de boa vontade, de má vontade, da puta que pariu, compaixão para o nosso pobre mundo abandonado. Animais racionais, ouçam! Um dia quem sabe os céus ou os infernos me ouvirão?Enquanto não, rastejo junto aos meus iguais: os excluídos, os pestilentos, os que se tornam, pelos descasos, irracionais.
Sou...
Um humano que não espera nada do segundo que passou; pois é passado; não espera nada da hora que virá, pois é incógnita. Sou somente o presente, que me dá oportunidades para crescer como homem ou me faz chafurdar na lama, dependendo de minha ação.
Sou...
Este exato momento que estou destilando esse irracional pensamento.

Sou...

Edi Longo,
SBAT 030899